O homem mediado

danielpiza

04 Julho 2010 | 12h02

Baptistão

Em vários pontos de Johannesburgo há demonstrações da televisão em 3D, inclusive uma sala de cinema improvisada no meio da Praça Mandela, no bairro de Sandton, com apresentador e tudo. Obviamente a aposta é concentrada na sugestão de que assistir aos jogos de futebol será muito mais vibrante, mas também são mostrados programas sobre natureza, videoclipe da Shakira e outras coisas bonitas. Acima de tudo, o discurso promete “ultimate experiences”. Esse é o adjetivo da moda, “ultimate”, e quer dizer que são experiências definitivas, insuperáveis, supremas. É claro que sabemos que daqui a dois ou quatro anos o mesmo anunciante – como nos comerciais de sabão em pó, carros ou silicones – dirá que se superou. Mas tudo isso dá o que pensar sobre nossos tempos.

Uma característica que percebo é justamente essa procura por experiências de alta intensidade emocional, ou melhor, sensorial. Vemos isso na onda de “esportes radicais”, de desafios cheios de adrenalina e serotonina como triatlos e escaladas. Vemos também em iniciativas culturais como uma “maratona de eventos” ao longo do fim de semana, ou longos shows ou baladas esticadas até o amanhecer com a ajuda de tônicos e outras substâncias. A própria indústria musical passou a se dedicar a levar espetáculos para todos os cantos do mundo, como o Brasil, já que elas e os astros não vivem mais dos CDs e não se pagam na internet. Contrariando os apocalípticos, as salas de cinema voltaram, apoiadas em novas tecnologias, porque afinal oferecem uma experiência que a sala de casa não oferece (nenhum “home theater” tem uma tela daquele tamanho e um áudio daquela qualidade). Já os games estão cada vez mais sofisticados, com a interação virtual; você pode realmente suar jogando tênis no Wii. E nos estádios de futebol, ou “arenas”, como se diz agora, há apelos a todos os sentidos: telões, restaurantes, lojas, diversões, “cheer leaders”, vuvuzelas… É como se ninguém pudesse se aquietar em nenhum momento.

Não sou contra nada disso, e tenho curtido muito dessas coisas. Ao contrário do que diz a mentalidade classe média tradicional, tão forte em tantos dos ditos “intelectuais” desta era pós-utópica, a natureza humana não quer apenas estabilidade, rotina, segurança, conforto. Mesmo o mais careta ou reacionário dos cidadãos sofre por aquilo que não viveu – os lugares aonde não foi, as posições que seu (sua) companheiro (a) não quer, os assuntos que ignora, os jogos que não joga. Tolera-se razoavelmente que outros sejam mais ricos, bonitos ou inteligentes; o que dá inveja mesmo é que se divirtam mais, que façam mais coisas diferentes, que não tenham a mesma vidinha de emprego repetitivo e casamento castrador.

Mas aí é que entra o reverso da tendência. Essas experiências de limite, tão artificialmente intensificadas, criam a ilusão de que só elas valem. Há algo de infanto-juvenil nessa carência de excitação contínua, assim como a contracultura parecia às vezes apenas o medo de assumir responsabilidades. Fala-se em “definitivo” como se fosse transcendente ou sublime. Acontece que muitas das vivências mais transformadoras do indivíduo não são assim, não precisam de tanto ruído e sentimentalismo. E o mais importante: uma experiência mediada, por mais cara ou refinada que seja a mediação, não substitui a experiência real. Sim, a arte faz uma simulação do real e permite que tenhamos a percepção de outras épocas, lugares e valores, mas todo grande artista sempre soube que nenhuma linguagem é neutra. E sim, o que as linguagens audiovisuais (cinema, TV) nos deram em conhecimento e liberdade (o muro de Berlim não teria caído sem a força das imagens) é subestimado, assunto ao qual voltarei, mas não chegam lá.

Volto ao 3D: uma das imagens mostrava alguns ursos sob a neve no Japão, e a definição era tal que víamos as texturas da pele e as formas do movimento (como nos replays em HD da atual Copa); mas parte da neve parecia cair num primeiro plano, muito próximo da vista, enquanto o urso e a outra parte da neve pareciam estar num segundo plano, o da tela. Talvez essa sensação de camadas visuais ainda seja superada, mas por enquanto ela funciona pelo detalhismo e nas ações de profundidade (mergulho da câmera ou algum objeto vindo na nossa direção). Ou então volto à mais tradicional tecnologia de imagem, a fotografia. Nenhuma lente consegue fazer o que o olho consegue: captar com nitidez simultânea as diversas distâncias, sem desfocar um plano em benefício do outro. O olho emoldura e qualifica, mas tem vantagens técnicas impressionantes.

Todas essas mediações, enfim, nos condicionam, criando a ideia de que são o máximo e tirando o tempo dos contatos diretos e dos momentos silenciosos. Não à toa há cada vez mais déficit de concentração. A realidade pode ser tediosa e frustrante muitas vezes, mas essas fugas mediadas – programadamente desmedidas – são também um sintoma disso ou, ainda, o reforçam por contraste. Descobrir que a realidade é e pode ser bem mais interessante, independentemente de nossas vontades, é esse o evento que pode ser definidor. Definitiva, só a morte.

(“Sinopse”)