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danielpiza

07 Janeiro 2007 | 13h04

Vejo que a revista “Piauí” deste mês dedica artigos de capa à natação. Além de um conto de Calvino, o melhor texto – ainda que curto demais – é de Oliver Sacks (as traduções, de novo, são o melhor de uma publicação brasileira): “Nunca achei monótono ou entediante nadar. A natação me dava uma espécie de alegria, uma sensação de bem-estar tão grande que às vezes se tornava uma espécie de êxtase. Havia uma entrega total no ato de nadar, em cada braçada, e ao mesmo tempo a mente podia flutuar livremente”.

O clichê dominante é o da solidão do nadador. Fala-se pouco sobre a mecânica do nadar, como se fosse irrelevante. Sim, natação talvez seja o único esporte em que os movimentos ganham autonomia e não sofrem interferência visual a todo instante. E em que é possível ter prazer sem o instinto de competição. O olhar se espalha pelo azul da piscina, pela maneira como a luz se refrata em fiapos nos azulejos, pela sensação de deslizar em compassos. Mas a cabeça precisa se concentrar de tempos em tempos nas exigências: respirar direito, manter o horizonte, alternar a virada do pescoço, zelar pela mão fechada em ponta com o braço num arco quase esticado, bater mais as pernas. Por isso mesmo a mente é estimulada, e não narcotizada pela repetição e simetria. Frases podem ser pensadas, atos revisados, lembranças cultivadas; a combinação entre solidão e bem-estar dá coragem para não mentir para si mesmo. Não se nada necessariamente para emagrecer, para vencer, para se superar. Não se nada “necessariamente”. Tampouco se nada por fuga, por terapia que só busca quem nela se oculta. Nada-se para viver melhor.

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