Pelé, 70

danielpiza

22 Outubro 2010 | 10h11

Ontem foi o aniversário de Pelé, 70 anos, e as comemorações foram muitas, como em belos programas de TV. Eu já o entrevistei algumas vezes, como no aniversário da Copa de 58 e da Copa de 70, e já escrevi muito sobre ele, como quando o conheci num almoço e depois assisti ao documentário de Anibal Massaini. Mas o texto em que acho que consegui chegar perto de dizer o que queria sobre ele, e está no meu livro Ora, Bolas, se chamou “O físico de chuteiras” (29/10/1999) e dele extraio o seguinte:

“(…) E as duas coisas que mais me entusiasmam. Primeiro: como jogador, até hoje está acima de todos os clichês do esporte. Não é apenas por ter sido mais ‘completo’ que normalmente vence as eleições de melhor do século, mas por ter sido completo e brilhante ao mesmo tempo. A mentalidade nacional diz que o criador é ou uma coisa ou outra. Não: o grande criador – e um atleta é um criador, não exatamente um artista – é justamente aquele para quem a necessidade da ordem, em vez de abolir, estimula a centelha inventiva; que é capaz de fazer tudo que é possível fazer (tem versatilidade, regularidade, consistência) e, mesmo assim, ser imprevisível. Nossa cultura, exagerando um vício de toda a cultura ocidental, espera sempre a ‘inspiração’ que assalta um criador, ou então a correção quase absoluta. Fulano não pode ser ‘genial’ e, ao mesmo tempo, de uma condição física perfeita: todo lírico teria de ser um tanto excêntrico, um tanto autodestrutivo. Pelé, como atleta, rompeu com isso.

“Podia debochar do adversário com elegância, ereto como um bloco de consciência. Podia ser ‘moleque’ sem exagerar na firula ou na frescura. Sabia quando bater e quando blefar do mesmo modo como sabia quando brecar e quando brincar. Todo drible era ‘funcional’ como um passe; todo passe, ‘egoísta’ como um drible. E todo chute buscava o endereço certo mesmo que por caminhos antes tidos como tortos. Não há retórica em Pelé: sua estética vem de sua pragmática, de seu absoluto senso de tempo (como se fala de um ouvido absoluto), do domínio único não só do movimento que faz ou deixa de fazer mas também do movimento que os outros e a bola farão ou deixarão de fazer – e às vezes numa fração de tempo que não cabe na lógica rasteira. Parece que o cérebro dele tem um lobo a mais, um centro que coordena as atividades motoras responsáveis por esse modo de existência chamado jogo de futebol, digno de um físico de chuteiras. Para ele, é como se uma trivela, uma chaleira ou um elástico fosse tão imprescindível quanto o mais banal fundamento.

“Usando as duas pernas quase com a mesma riqueza de recursos, cabeceando como se cumprimentasse a bola e o goleiro, driblando em alta velocidade como se estivesse parado diante do inimigo, distribuindo passes e lançamentos com uma espécie de displicência altruísta, ele criou um padrão insuperável. É inimitável e paradigmático como toda obra de gênio: todo mundo quer ser igual a ele e ninguém pode; ele parece conter o que foi inventado no passado e antecipar o que seria inventado no futuro. Como Machado de Assis, João Cabral ou João Gilberto, deu ao mundo o que há de melhor: um rigor infinito numa forma desprendida, ‘solta simetria’, bossa nova, bruxaria feita de autocontrole.


“E a segunda coisa: Pelé é autor de frases como ‘Eu sou mais eu’. Num país em que todos aceitam tudo, e comodidade rima com covardia, até exagera na autoconfiança – mas é a autoconfiança de quem sabe o que quer, sabendo o que pode. E prova que o guerreiro e o cavalheiro podem ocupar o mesmo corpo.”