Tragédia e incompetência

danielpiza

18 Julho 2007 | 11h20

Talvez seja cedo dizer que a causa direta do acidente do vôo 3054 da TAM seja a pista do aeroporto de Congonhas, por sua falta de “grooving” (as ranhuras que escoam água e ampliam aderência na hora do pouso). Alguns especialistas estão apontando outras hipóteses como algum defeito no sistema de freio e erro do piloto ao tocar a pista. Mas que existe uma relação ao menos indireta entre a crise da aviação e a tragédia de ontem, existe. Diversos aviões derraparam na pista antes e depois das obras. A Infraero, pressionada pela seqüência de atrasos e descasos que dura desde o acidente da Gol com o jato da Embraer, no mínimo não foi prudente no trabalho de recuperação do aeroporto de Congonhas, nó maior desses sistema – e que há anos está sobrecarregado e sem margem de segurança.

O governo falhou pelo menos em dois quesitos: não ampliar e reequipar o sistema para atender à demanda crescente de vôos; e não reagir à crise com firmeza, transparência e inteligência. Não se pensou no modelo (que deveria ter mais controladores civis, como é na maioria dos países), não se falou em privatizar (ou fazer concessões para construção de aeroportos, como mais um na Grande São Paulo), não se estabeleceram metas (Waldir Pires chegou a “chutar” que os transtornos durariam um ano). O mesmo governo que cortara verbas da Infraero e a ocupara com diretores sem qualificação técnica não pensou em solução que não fosse estatal, que olhasse para o mercado da aviação e, portanto, para os consumidores. Não espanta que em menos de um ano o Brasil tenha visto seus dois maiores acidentes áereos.