Triunfo da boutade

danielpiza

25 Outubro 2009 | 08h20

Baptistão

O mundo anda muito sem humor e, por mais razões que haja para perdê-lo, é sempre mais racional reanimá-lo. O curioso a respeito do novo filme de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios, é que até seus mais ardentes admiradores o levaram a sério de uma forma que ele próprio satiriza. O roteiro é todo estruturado por meio de “boutades”, de tiradas espirituosas, de trocadilhos verbais, visuais e sonoros; e ao mesmo tempo conta uma história, flui, envolve o espectador, cria expectativa quanto ao passo seguinte. Essa ambivalência se desdobra em vários temas, e quem quiser reduzi-lo a um ou dois vai cair no vazio. Pulp Fiction ainda é, para mim, sua obra-prima, pela deliciosa e ligeira irresponsabilidade (como o personagem de John Travolta morrer e continuar no filme), mas Bastardos Inglórios é tudo menos solene.

A abertura demonstra seu domínio narrativo. Há uma grande tensão na cena e, no entanto, sabemos desde a primeira troca de palavras entre o oficial nazista e o fazendeiro francês que a ironia está no controle. O mesmo vai acontecer em outro momento forte, o da taverna, em que um jogo de adivinhação entre os nazistas e os infiltrados antecede um tiroteio quase sem sobreviventes. As duas principais referências de Tarantino ao longo de todo o filme são, portanto, gêneros fortes no cinema americano: os westerns, desde os de Sam Peckinpah e John Ford até os “spaghetti” de Sergio Leone (com seus créditos exagerados), passando por várias citações musicais como as de O Dólar Furado e Ringo; e os filmes de guerra, como Os Doze Condenados, Sargento York e Os Mercenários (de cuja atriz tirou o nome Mimieux). E isso pelo motivo óbvio de que está contando uma história sobre nazismo e vingança; e pelo menos óbvio de que está reagindo a essa ideia de que o cinema “espetaculariza” e, pois, incita a violência – como ele mesmo já foi tão acusado.

Tarantino distribui também alusões ao cinema europeu, a filmes extraordinários como O Corvo, de Clouzot, que a jovem judia Mimieux (Shosanna Dreyfus por nascimento) é obrigada a tirar de cartaz para exibir O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl. Ele fala ainda de outros filmes alemães, obviamente, e O Garoto e King Kong; remete a Hitchcock (o cigarro enfiado na torta com chantilly – como no ovo em Ladrão de Casaca); imita Potemkin, Fassbinder, Scarface e mais diversas cenas e autores que não sei ou não pude identificar. Isso, porém, não significa que seu filme seja uma colagem de citações pós-moderna, porque mesmo quem não as conhece ou reconhece vivencia a história e porque ele acrescenta muitas invenções suas. À diferença de certa vanguarda europeia, por exemplo, que abandonou o frescor pró-americano inicial da Nouvelle Vague, Tarantino sustenta o realismo, o “make believe”. Faz antes uma homenagem ao internacionalismo do cinema, como na Hollywood repleta de imigrantes dos anos 30 e 40, do que um pastiche pedante.


Entre suas invenções está o uso corrente dos jogos de palavras, como nos comentários aos sotaques (as peculiaridades locais ou nacionais que se refletem até nos gestos, como na cena em que um dos “bastardos” pede três uísques), e a fina linha entre exaltar e satirizar cenas de violência, como a dos escalpes do tenente “apache” Aldo Raine – feito por Brad Pitt, ator que só não está melhor (com sua cara de Ernest Borgnine cômico) do que Christoph Waltz, o coronel Hans Landa, oficial da SS que tem lógica, é poliglota e… não sabe rir de si mesmo. Críticos se queixaram do modo como Tarantino trata o nazismo (David Denby, da New Yorker, confundiu “ridículo” com “ridicularizante”), como já haviam se queixado de Roberto Benigni por fazer piada com os campos de concentração (e mandar a mesma piscada de olho para a cultura americana). Mas é justamente de falta de humor que eles estão falando!

Daria para dizer que o grande tema de Bastardos Inglórios é o cinema, mas isso sugere mais uma vez que a metalinguagem dá o tom. Primeiro, é comum que bons artistas falem sobre sua própria arte, como Orson Welles queimando a película no final de Cidadão Kane, ou como os escritores que tanto fizeram personagens leitores, de Dom Quixote a Emma Bovary. Segundo, Tarantino sempre discutiu a questão da manipulação ou não do público por imagens e sons. No atual filme, há uma cena em que a moça parece que vai se reconciliar romanticamente com o inimigo, na soma do semblante e da trilha, e então somos surpreendidos. Tarantino trabalha com entrechos e desfechos – obtendo soluções ótimas, como a do sapato no pé sem gesso da espiã – como se dissesse que devemos nos deixar levar por eles, mas não confundi-los com a realidade, como fazem o Führer e todos os nazistas diante do filme que, ao estilo do heroísmo americano, conta as façanhas de um jovem soldado que sozinho matou dezenas de inimigos.

Há passagens que parecem mais lentas ou longas do que poderiam ser, e realmente o filme não perderia nada se reduzisse o “puzzle” das remissões, mas suas qualidades são muitas e vão além da discussão sobre se é realista ou artificial. Como os irmãos Coen, ele bebe na poderosa tradição narrativa do cinema americano, que não cabe num rótulo só, e mescla com brincadeiras que vão das mais vulgares às mais sofisticadas. A certa altura, o tenente Raine diz que é um “escravo das aparências”, mas o sorriso de canto mostra que ele está, na realidade, criticando essa escravidão representada nos uniformes nazistas ou nas imagens olímpicas de Riefenstahl. Afinal, é “bastardo” e “inglório”. O purismo – de raça, moral ou ideologia –, assim como sua versão organizada, o triunfalismo, é o maior alvo. Rir é a mais legítima defesa.

(“Sinopse”)