Uma lágrima para Gaiarsa

danielpiza

19 Outubro 2010 | 09h26

O trabalho de José Ângelo Gaiarsa, morto no sábado aos 90 anos, sempre foi controverso, mas tenho por ele gratidão, que infelizmente nunca exprimi em público devidamente. Gaiarsa era um psiquiatra reichiano; foi nele que li pela primeira vez sobre Wilhelm Reich, máquina de orgasmo, etc. Reich está fora de moda, mas durante a contracultura era celebrado por sua visão libertária do corpo, o qual todos tendemos a aprisionar. Lendo Gaiarsa nos anos 80, aprendi a prestar atenção nas informações que esse corpo emite para resistir à repressão de seus impulsos, como na respiração, e a entender que por trás de tabus como a masturbação estava o autoconhecimento. Em seus livros sobre sexo, encontramos grandes dicas detalhadas de como prolongar o prazer, controlar a ansiedade, variar o ritmo, etc. Tudo que os pais e irmãos não ensinavam.

Lembro de outro livro, O Espelho Mágico, em que contestou a noção de que uma pessoa não deve ser curiosa sobre a própria aparência, como se a vaidade fosse um pecado e nada mais, como se não existisse uma linguagem não-verbal. Ele também aparecia em programas de TV, sempre muito claro, sempre contrário à conversão de instintos em instituições, ao papo conservador sobre “lar estruturado”; para ele, não fazia sentido que o casamento desse o direito a uma pessoa de impor à outra uma vida sexual pobre. Foi adepto de relações abertas, em que disse que as mulheres levavam vantagem. Mais tarde, reconheceu a força biológica dos ciúmes e os ganhos inclusive eróticos da estabilidade. Sua voz faz falta numa época em que os afetos voltaram tanto a se confundir com interesses.