Nas asas da imaginação da Janaina

Estadão

30 Julho 2013 | 17h40

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(Por Aryane Cararo)
Os olhinhos puxados de Janaina Tokitaka explicam muita coisa. Sua ligação com a cultura oriental é forte em seu trabalho como escritora e ilustradora e, volta e meia, ela conta mais um pouquinho de uma lenda, de uma crença, de uma história inspirada nos costumes do outro lado do mundo que ela ouviu. É assim em Asas de Dragão, seu novo livro pelas Edições SM, fresquinho, fresquinho. E colorido de dar gosto de ver. São duas histórias que viram uma só justamente no meio do livro. Um dragão macho e um dragão fêmea que viviam muito sozinhos até resolverem se arriscar e voar pelo mundo desconhecido. Um sai da montanha, o outro da caverna.
E fico aqui pensando quantas vezes ficamos inatingíveis na montanha ou escondidos na caverna, sem nos arriscar a enxergar o mundo de outra forma, sair da nossa zona de conforto para descobrir coisas novas. As descobertas podem ser muito boas, como mostra Janaina. E quantas vezes olhamos para nosso mundo sem encontrar os mistérios e encantamentos que existem nele, todos os dias, ao nosso redor. Isso é um pouco sobre o que se trata o segundo livro que Janaina está lançando, chamado Novos Moradores, pela Escrita Fina (R$ 35).
Um dia, dentro do sapato do pai, aparece uma aranha. No outro dia, uma planta cresce no calçado. Só a menina vê aquilo tudo acontecendo. Ela tenta alertar os pais, mas eles estão sempre muito ocupados, não conseguem enxergar. Então, os absurdos começam: focas na geladeira, felinos na sala, bichos-preguiça na cadeira, baleias na banheira. Como os pais reagem? Eles apenas tentam se acostumar. Mas a menina, essa sim, sabe aproveitar.
Para falar desses livros e um pouquinho do seu trabalho, batemos um papo com a Janaina. Vamos voar com ela?
Asas de Dragão é um livro para ler em duas frentes que se encontram no meio. Ele foi projetado assim desde o começo?
 Janaina Tokitaka: Sim, foi sim! A ideia era brincar com a leitura oriental, inversa à que estamos acostumados, já que o livro japonês sempre me influenciou muito. Logo, pensei que seria divertido que o livro terminasse no meio. Achei que poderia funcionar como uma surpresa interessante para o leitor.
De onde veio a ideia para escrever e ilustrar essa história? 
Eu adoro dragões. Há alguns anos que tenho vontade de escrever e ilustrar uma história sobre eles. São criaturas fascinantes e acredito que grande parte da atração que eles exercem vem de serem sempre retratados como raridades, animais misteriosos. Mas, ao mesmo tempo, ser raro e diferente pode ser muito solitário. Desta conclusão nasceu a ideia das duas histórias do livro.
Sei que não há um lado certo para começar, mas qual é  seu preferido?
Impossível responder! Gosto muito do cenário de cidade do lado do dragão verde e da caverna do dragão vermelho.
Nos dois casos, os dragões vivem solitários até decidirem mudar suas realidades e se aventurarem por jornadas de reconhecimento do mundo. Essa é uma mensagem que funciona para a vida? 
Claro. Dá trabalho colocar as asas para funcionar, voar cansa e dá muito medo. Mas compensa, viu?

Em seus livros, dá para perceber que você tem uma ligação muito forte com a cultura oriental. Explica um pouco essa ligação?
Sou descendente de japoneses, então, sempre estive em contato com cultura oriental. Lembro de ver revistas e quadrinhos japoneses quando era criança e adorar as ilustrações coloridas e as proporções esquisitas. Os mangás e animes ainda não eram tão comuns e lembro muito bem de pensar: “Nossa, então quer dizer que posso desenhar assim, também?”. O livro Asas de Dragão, aliás, usa uma forma não muito conhecida de narrativa oriental chamada Haibun, que mistura prosa, poesia e relato de viagem.

Já em Novos Moradores, há uma situação nonsense de animais que começam a aparecer em lugares improváveis da casa. De onde veio essa ideia? 
Nos meus livros, costumo misturar situações cotidianas com absurdas. As cotidianas geralmente são inspiradas em memórias de infância, uma conversa que ouvi em um restaurante, algum objeto fora de contexto, coisas do gênero. Neste caso, a inspiração veio de uma aranha pequena que descobri dentro de um sapato marrom.
O absurdo faz parte da vida humana? Por que só as crianças não se assustam com ele?
Sim! É algo com que nós, escritores e artistas, aprendemos. Acho que lidamos muito mal com o absurdo, tentando explicar e racionalizar absolutamente tudo na vida. Infelizmente (ou felizmente!), acho que grande parte da vida é caótica e misteriosa, mesmo. Aceitar o inexplicável faz bem, é só perguntar às crianças.
O que acontece quando o mundo da imaginação invade o mundo real?
Meu mundo “real” é invadido o tempo todo pelo mundo da imaginação. Acho que todos os apaixonados pela narrativa, sob qualquer forma, enxergam o mundo assim, filtrado pela tela do cinema, pelas páginas de um livro… Ao mesmo tempo, gosto de ter uma rotina bem disciplinada para manter os pés no chão. Acordo cedo, almoço sempre no mesmo horário, tento tratar meu trabalho como trataria qualquer outro.
Aliás, você costuma fazer muitos livros sobre monstros, por quê?
Porque acho que monstros representam um lado de nós mesmos que não estamos acostumados a olhar e estranhamento é sempre bom material para literatura, tanto para os pequenos quanto para adultos.
Você acredita em monstros, dragões e bichos que surgem, por exemplo, dentro da geladeira?
Acredito, viu? Meus monstros sempre saem de lugares esquisitos. Moro em São Paulo, então, meus monstros acabam surgindo da paisagem daqui, que, justamente por não ser das mais inspiradoras, acaba fazendo com que a gente exercite mais a imaginação. Monstros podem habitar um quintalzinho, um terreno baldio, estacionamentos, geladeiras…
Em quais projetos está trabalhando agora?
Depois de passar tanto tempo escrevendo a trilogia A Árvore, só com texto, fiquei com vontade de fazer um livro só de imagem e é nele que estou trabalhando agora. Chama Nanquim e é sobre um monge e uma garça.