Autores contam a batalha para serem publicados

Jovens autores contam as dificuldades que sofreram para publicarem seus livros. Mesmo autores premiados não conseguem viver de suas obras e muitos precisam pagar do próprio bolso para terem seus trabalhos reconhecidos

Redação

17 Junho 2011 | 23h47

Por Ana Rita Martins

“Só um momentinho que nós vamos estar passando (sic) a ligação para o departamento de novos autores”. Enquanto a escritora Andrea del Fuego, na época com 27 anos, ouvia a voz da secretária ser substituída por uma musiquinha de eterna espera, chegou a correspondência. Era a resposta da quinta editora para a qual ela havia mandado Minto Enquanto Posso, seu primeiro livro de contos. “Só mais um momento, senhora”, disse a secretária. Tempo suficiente para ler a carta: “Apesar das qualidades, você não se encaixa no nosso projeto editorial”. Andrea poderia ter esmorecido. Em vez disso, continuou sua árdua missão suada por uma chance de ver sua obra publicada. “Tu…tu…tu”, a ligação tinha caído. E muitas outras cairiam até que, dois anos depois, em 2003, ela conseguisse, enfim, um lugar nas prateleiras para sua obra de estreia.

Hoje, aos 35 anos, Andrea tem quatro livros de contos, três infanto-juvenis e um romance publicados. Com Os Malaquias, é finalista na categoria melhor livro de autor estreante no Prêmio São Paulo de Literatura, que concede R$ 200 mil ao primeiro colocado nesta e na categoria melhor livro do ano. A despeito dessa chance, que só saberá ser vitoriosa em agosto, Andrea ainda não consegue viver de suas obras – como a maioria autores do País.

Com trajetórias iniciais similares, jovens autores têm descoberto que de romântica, a vida de escritor só tem as histórias contadas em livros. O que eles mostram, por meio de suas experiências, é que não basta apenas talento. Uma boa dose de persistência, marketing pessoal e desprendimento econômico são essenciais a quem pleiteia uma carreira literária.

A escritora Márcia Barbieri, 32 anos, chegou a reunir seus contos num livro diagramado, revisado e impresso por ela mesma, com o intuito de vender aos leitores. “Não consegui”, diz a autora. “Sou tímida e, quando ia vender, ficava sem graça e dava o livro”. Sua sorte mudou após a divulgação da obra em seu próprio blog que, com mais de 20 mil acessos desde sua estreia, em 2003, chamou a atenção de editores. Márcia fechou, recentemente, contrato com a editora Multifoco para lançar As Mãos Mirradas de Deus, em julho. “A editora vai dar os livros e eu pagarei o coquetel da festa de lançamento”, conta. “Tem de ser assim porque pouca gente lê contos. As editoras pequenas investem, mesmo sem saber se vão ter retorno financeiro”. A sessão de autógrafos será bancada pelo salário que Márcia ganha como professora da rede municipal.

O escritor Juliano Ribas passou por dificuldades diferentes para ver Contrafeito publicado em 2009. Conciliar a vida de escritor com a de redator publicitário e com a de pai de família foi o maior desafio: “Trabalhava doze horas por dia, escrevia aos finais de semana e ainda tinha de dar atenção às minhas filhas”, diz. Para publicar, Juliano contou com a sorte de conhecer alguém dentro de uma editora e que gostava do seu trabalho.

No caso da poesia, ir para as prateleiras é tão difícil que os autores se esforçam para tornar a linguagem mais acessível. Recentemente, Rafael Rocha Daud e Lilian Aquino, ambos de 31 anos, participaram de um movimento de declamação de poemas na Avenida Paulista. “Pegamos a notícia do atropelamento de ciclistas em Porto Alegre, que na época todos estavam comentando, transformamos em poesia e declamamos”, diz Lilian. Apesar de ambos já terem contratos de publicação fechados para esse semestre, dizem que o esforço vai além: “A publicação é só um passo. Precisamos formar leitores”.

Analu Andrigueti, 33 anos, e Maiara Gouveia, 27 anos, também poetisas, dizem que a poesia ainda é vista como “chata e antiquada”. “Poucas pessoas compram ou conhecem poetas vivos”, lamenta Rafael. Conseguir publicar parece ser uma grande batalha. Digna de Dom Quixote.