Em clima de piquenique

O hábito de estender a toalha no chão para comer e papear ao ar livre vem de longe, da França do século 17, e permanece forte na Europa até os dias de hoje. Por aqui, o piquenique é uma ótima opção a quem procura unir diversão e simplicidade.

Redação

17 Março 2012 | 23h00

MARCELA RODRIGUES SILVA

A toalha xadrez da empresária Laura Estima, de 48 anos, já passou pelos gramados dos principais parques de São Paulo. O roteiro começou há 20 anos, quando ela se mudou de Porto Alegre e trouxe consigo uma tradição de família que a tornaria mais apreciadora da cidade do que muitos paulistanos natos. Exploradora de espaços arborizados, Laura hoje tem point fixo: a Praça Amundsen, na Rua Ubiracica, em frente ao Parque Villa-Lobos, no Alto de Pinheiros. É ali o ponto de encontro por excelência com as amigas – dela e da filha Manuela, de 13 anos. Qualquer ocasião é pretexto para fazer um belo piquenique, até o aniversário de Jimmy, poodle da família, de 1 ano.

Além da comilança, grande propósito da ocasião, o que entusiasma Laura mesmo é sair de frente do computador e curtir uma tarde em boa companhia, aproveitando a natureza que a cidade oferece. Até a filha adolescente já se convenceu. “A gente nem lembra de computador”, diz Manuela. “Trazemos jogos e nos divertimos a tarde toda”, completa Laura.

O hábito de estender a toalha no chão para comer e papear ao ar livre vem de longe, da França do século 17, e permanece forte na Europa até os dias de hoje. Por aqui, o passeio é uma ótima opção a quem procura unir diversão e simplicidade – a proposta destoa das atrações badaladas dos centros urbanos. A ideia é desanuviar e apreciar os belos dias de verão. O programa é tentador, tanto que a trupe ‘piqueniqueira’ de Laura vem ganhando mais e mais adeptos.


Liberdade e economia
“Normalmente, tudo aqui em São Paulo é em lugar fechado e caro. O piquenique é ao ar livre, barato e fácil de fazer”, diz a designer gráfica Luiza Poli, de 32 anos, que costuma armar seus piqueniques na Praça da Coruja, na Vila Madalena. Os amigos levam queijos, bolos, vinhos e até cerveja. “A única preocupação é não deixar lixo para trás”, diz ela, apontando a principal dica de etiqueta do programa.

Que a prática à europeia vem mesmo conquistando paulistanos, a produtora de eventos infantis Tati Leme já percebeu. Acostumada a organizar festinhas para crianças de até 4 anos em buffets, ela se tornou expert em montar piqueniques personalizados para suas clientes, de tantos pedidos que recebeu no último ano. “Agora no verão, todo mundo quer fazer sua festinha com gramado, cestinha, toalha no chão”, conta a promoter. “Piquenique é a solução para as mães que querem espaço para as crianças correrem soltas.”

Foi num evento desses que a publicitária Susana Fujta, de 35 anos, viu pela primeira vez a filha Beatriz, de 2 anos, correr descalça na grama. “Ela não parou um minuto. Este ano, quero fazer um piquenique no aniversário dela, nos arredores do condomínio.”

Assoprar as velinhas do bolo sobre um isopor improvisado como mesa na hora do parabéns já é rotina nas comemorações do pequeno Ulisses, de 3 anos. A mãe, a educadora Stella Ramos, de 35 anos, não se cansa dos festejos ao ar livre. Num cantinho do Parque Villa-Lobos, ela pendura bexigas nos galhos das árvores e espalha guloseimas na toalha sobre a grama.

“Festa fechada em buffet nunca foi a nossa cara e eu não queria aquele roteiro engessado. No piquenique, todo mundo conversa com calma e as crianças brincam de bola, andam de bicicleta, usam a imaginação”, diz Stella. Anfitriã da festa, ela sugere que os convidados levem algum prato, para manter a essência do programa.

Sem fazer farofa
Do hábito vieram os macetes, e Fabiana Jardim, de 34 anos, e duas amigas criaram o blog Piquenique Perto de Casa. Ela diz a receita: “Tempo bom e comida gostosa bastam. Só a chuva é problema”, diz a professora universitária que há 2 anos publica fotos, dicas e receitas dos encontros com as amigas. Uma vez por mês, elas se reúnem na Praça Senador José Roberto, na Lapa, e atraem olhares de curiosos.

Foi assim com professora Kelly Freitas, de 35 anos. Em janeiro, estendeu a toalha pela primeira vez, para um encontro de família no Horto Florestal. “Em todo aniversário de São Paulo, meus pais saem de Carapicuíba (SP) e vêm à capital. Eles sempre escolhem um lugar para visitar. Este ano, sugeri nos reunirmos num piquenique. Não tinha forma mais agradável de curtir a cidade tranquila pelo feriado”, conta ela.

Kelly teve duas preocupações, já que reuniria de idosos a crianças: a temida farofada. “Resolvi o problema caprichando na organização, evitando bagunça, e levei almofadas para que fosse confortável sentar no chão. Ficou lindo”, orgulha-se. Com comida para um batalhão, o encontro se estendeu por café da manhã, almoço e jantar. Muito bem aproveitados.