Entrevista: Inezita Barroso

Há 32 anos, a cantora paulistana Inezita Barroso, de 86, comanda o Viola Minha Viola, na TV Cultura. Às quartas-feiras, quando o programa é gravado, a plateia lota o Teatro Franco Zampari, no centro de São Paulo. Às vezes, é preciso até montar um telão do lado de fora. Foi lá, após a gravação de mais um programa, que Inezita conversou com o JT

Redação

20 Fevereiro 2012 | 01h47

Aos 86 anos, ela comanda há três décadas
o programa ‘Viola Minha Viola’,
e quer levar até o fim da vida a missão de elevar
a música caipira e a moda de viola no Brasil 

Por Felipe Branco Cruz

Há 32 anos, a cantora paulistana Inezita Barroso, de 86, comanda o Viola Minha Viola, na TV Cultura. Às quartas-feiras, quando o programa é gravado, a plateia lota o Teatro Franco Zampari, no centro de São Paulo. Às vezes, é preciso até montar um telão do lado de fora. Foi lá, após a gravação de mais um programa, que Inezita conversou com o JT. Quando nasceu, em 1925, ainda era proibido mulher votar. Hoje ela vê o avanço das mulheres em todas as áreas, inclusive na política, com a presidente Dilma Rousseff. Mesmo octogenária, Inezita quer cumprir sua missão de elevar a música de raiz e a viola. Mesmo que ninguém da família – uma filha, três netas e quatro bisnetos – tenha seguido a carreira musical. “É tudo bicho do mato”, graceja.


Qual é o segredo para manter um programa por 32 anos no ar?
Amor à música de raiz. Amor à música da terra. Um pouquinho de briga para colocar tudo isso no ar. E sustentar por esses 30 e tantos anos. Acho que não existe nenhum programa há tanto tempo no ar. Quem tem mais ou menos uma data parecida muda de estação. Tem uma hora que a pessoa cansa e vai fazer outra coisa, pegar outro repertório, se aposentar. Dediquei mais da metade da minha vida a isso. Fiz uma promessa a mim mesmo de elevar a viola. A viola foi o primeiro instrumento brasileiro. Todo mundo faz cara feia quando diz que vai acontecer um show de viola. Já perdi quilos de shows, mas não estou nem aí. Eu não canto por dinheiro. Se cantasse, iria para o viaduto com chapéu no chão.

Então, você vê muita discriminação contra a viola?
Sim, e dentro de São Paulo, no interior, onde a viola é mais forte. A nossa viola é milagrosa. Ela tem mais de 30 afinações. Cada canto do Brasil tem seu estilo.

Se não fosse pela TV Cultura, acha que ‘Viola Minha Viola’ teria espaço em canais como Globo, SBT ou Band?
De jeito nenhum! É outro estilo. É outro jeito, sistema e objetivo. O objetivo não é conservar a música brasileira nem a viola. Tem muita gente que é contra, porque não entende.

A voz da senhora continua afinada. Como cuida dela?
Nada. Nunca aprendi canto. Eu só não tomo gelado. Acho que embaça a voz. Fiz muitos esportes na vida, desde os 6 anos de idade. Ainda tenho a consequência desses esportes, como natação, vôlei e ginástica. Acho que isso me deu uma força física. Se você ficar preguiçoso, está perdido. Enquanto você é moço, tem de batalhar, correr, nadar, ir para a praia. Eu fiz muito isso. Acho que a base de saúde é isso.

O sertanejo está mais fraco ou mais forte atualmente?
Temos dois gêneros: o de raiz, que é o nosso, que é tirado do povo e jogado para o povo. E tem um outro, que não foi tirado de lugar nenhum. Parece uma coisa “não-sei-o-quê universitário”. Isso não dura, não tem lastro. Não está ligado no chão.

Foi bom a senhora citar isso. O que Michel Teló faz é sertanejo ou é pop?
Não é nada. Nem popular, nem sertanejo.

Michel Teló já participou do seu programa?
Mas nem pisa na porta. Se ele tocar Saudade de Matão, eu deixo ele entrar. Não é que eu tenha preconceito. São eles que têm preconceito contra a gente.

É difícil conciliar a gravação do programa com a agenda dos artistas convidados?
Sim. Alguns são dominados por outras pessoas, como empresários e gente que quer ganhar dinheiro. Essa história de que o disco estourou e vendeu milhões? O que vendeu? O povo está arrasado e não pode pagar um sanduíche. Quem acredita nisso?

O sertanejo universitário não contribuiu para chamar a atenção para a moda de viola?
São dois trilhos. Nesse aqui está o “não-sei-o-quê universitário”. E nesse outro trilho, está o pé no chão, o puro e o pé na terra. Esta é uma raiz plantada que nenhum vendaval derruba, desde os tempos do jesuítas. É uma coisa que vem de dentro para fora. Esses moderninhos vêm de fora para dentro. Bate e fica só um mês. São dois trilhos que não se encontram.

Na sua plateia, conheci pessoas que vêm assistir ao programa desde quando ele começou.
Eles gostam mesmo. Não vêm para aparecer na televisão. Deixo o povo solto. Me dá um ódio quando querem amarrar o público e dizer como tem de ser. Eu conheço o meu povo.

A senhora é uma grande defensora das tradições culturais?
Sim. Se a gente não tiver um passado, o que vai sobrar? Você precisa saber por que existem festas religiosas, Folia do Divino e Folia de Reis. As pessoas não sabem o que são as modas de viola.

Quando a senhora nasceu, mulher nem votava. Como vê o avanço feminino hoje em dia?
Era uma coisa proibida e considerada feia uma mulher trabalhar. Acho que a importância da mulher aumentou. A Dilma (Rousseff) é uma delas, não podemos negar. Eu odeio política, mas estou gostando do que ela está fazendo. Não estou alheia. Ela é uma mulher de pulso forte. Não voto mais, graças a Deus. Quando eu votava, era no homem ou na mulher, mas nunca no partido. Penei para ser artista.

Como foi na sua família? Aceitaram a senhora como artista?
Meu pai trabalhava na Estrada de Ferro Sorocabana e minha mãe ficava mais em casa, criando os dois filhos. Eu cantava desde criança. Tinha paixão para tocar violão. Fiz parte de vários grupos de crianças. Eu amava isso. Depois, aprendi piano. Num dia, meu pai disse: “Chega de música e frequentar palco. Você jamais vai frequentar palco”. E eu tinha 8 anos.

A senhora desafiou a família?
Muito. Era muito feio. Eu consegui minha liberdade quando me casei com um cearense. Minhas tias e meus tios mais velhos tinham preconceito contra ele. Minha família dizia: “Seus tios foram para a revolução”. E eu respondia: “E daí?”. Meus sogros foram pessoas de ouro. Foi por causa do meu marido que comecei a carreira. Em casa, só ouvia ópera e música erudita.

Moda de viola, nem pensar?
Mas nem pensar! A primeira viola que comprei, eu tinha 17 anos. Comprei no Del Vecchio. Comecei a tocar em casa. Imagina que eu iria tocar viola na rua.

Sempre convida Jair Rodrigues para o programa. Por quê?
Ele canta muito bem. Gostamos dele, porque ele anima o auditório. Mas estamos convidando os mais mocinhos para o programa. Temos reuniões semanais (para definir convidados).

Como vocês descobrem os talentos para o programa?
Eles mandam muitos CDs. Hoje estou levando cinco. Sento e fico horas ouvindo. Mas é um serviço penoso. A primeira música é boa. A segunda é bacana. Na terceira, já vem uma gritaria e estragou tudo. Sou eu quem dou a palavra final na escolha de quem vai ao programa. De dez discos que recebemos, tiramos só um.

Sente que já está com a missão cumprida?
De maneira nenhuma. Ainda falta muita coisa. Minha missão é valorizar a viola. Isso eu consegui. Nem fabricavam mais. Hoje tem viola até com o meu nome. Quero valorizar também a música caipira, de raiz. Música caipira é riquíssima. O poeta caipira é um herói.