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Gay relata vida em campo de concentração

Redação

01 junho 2011 | 22:26

Aos 98 anos, Rudolf Brazda, conta em livro como era a vida de homossexuais em campos de concentração alemães. Último sobrevivente do chamado “triângulo rosa” ele narrou sua história para pesquisador francês

Imagem do livro Triângulo Rosa. Rudolf Brazda em frente da antiga prisão (foto: divulgação)

FELIPE BRANCO CRUZ
O horror pelo qual os judeus passaram nos campos de concentração nazistas está fartamente documentado em estudos acadêmicos, livros e filmes. Esses lugares, no entanto, também aprisionavam negros, deficientes físicos e mentais, ciganos e homossexuais. Todos eram considerados inferiores pelo regime e o tratamento que tiveram nesses campos ainda hoje não é amplamente conhecido.

 Rudolf Brazda, 98 anos, é, segundo o pesquisador francês Jean-Luc Schwab, o último sobrevivente do grupo que os nazistas denominaram de “triângulo rosa” e que era submetido a trabalhos forçados no campo de Buchenwald, leste da Alemanha. Os integrantes desse grupo, formado só por homossexuais, tinham um triângulo rosa aplicado no uniforme – assim como os judeus tinham a Estrela de Davi.

 
Lúcido e dono de uma vitalidade invejável, Brazda aceitou contar a sua história para Schwab. As declarações foram compiladas, os dados históricos checados e agora o pesquisador lança o livro Triângulo Rosa – Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista. “Todo gay era obrigado a usar no uniforme um triângulo rosa para ser facilmente identificado”, disse o autor, em entrevista ao JT. Ao todo foram deportados para campos de concentração 10 mil homossexuais.

Antes de Hitler assumir o poder, já havia uma lei que previa prisão para homossexuais. Durante o 3º Reich, a lei foi endurecida. Mesmo após o fim da guerra, ser homossexual continuou sendo ilegal na Alemanha, Áustria e França. “Cerca de 40% dos homossexuais sobreviveram aos campos, mas foram forçados a manter silêncio, já que eram considerados pessoas fora da lei”, destaca Schwab.

Trajetória insólita
A primeira história de um integrante do triângulo rosa só viria à tona em 1972, quando o austríaco Heinz Heger publicou sua autobiografia. “A história de Rudolf é mais interessante porque a sua trajetória de vida foi insólita, começando na Alemanha, passando pela Checoslováquia, retornando para a Alemanha e, por fim, terminando na França”, explica Schwab. “Essa movimentação por esses países não era normal em tempos de guerra.”

Detalhes sobre como era o tratamento dado a homossexuais no campo e que tipo de trabalhos eles faziam são revelados no livro. Uma das partes mais interessantes da obra é aquela em que o autor fala sobre como os prisioneiros mantinham relações sexuais dentro do campo de Buchenwald, já que eram agrupados num mesmo barracão.

 Um trecho do livro diz: “Para Rudolf, prestar os favores sexuais exigidos pelos mais velhos não agradava à sua sexualidade. Mas é um mal necessário.” O autor completa: “Tudo o que Rudolf me disse, eu tentei checar em documentos oficiais dos nazistas que foram arquivados por entidades como a Cruz Vermelha.”

 Schwab acredita, ainda, que a obra poderá servir de exemplo para que os homossexuais assumam sua sexualidade. “Rudolf é um exemplo brilhante. Durante o período nazista, ele foi muito aberto sobre sua opção sexual”, diz.
O livro traz uma série de fotografias da juventude de Brazda, além de cópias dos documentos que comprovam sua prisão pela Alemanha Nazista. Para o autor, um dos motivos pelos quais o ex-prisioneiro dos nazistas está vivo até hoje é a sua alegria de viver.

 “É uma questão de temperamento. Ele sempre teve a habilidade de esquecer as coisas ruins e focar nas coisas boas da vida”, explica o autor. Mas para Schwab, o mais importante da obra é a lição de vida que seu personagem central deixa. “Ele foi incluído pelos nazistas numa categoria a ser totalmente exterminada.

A vida de Rudolf Brazda, depois da libertação, foi feliz porque ele assumiu a sua homossexualidade. Ele é a prova de que levar uma vida plena não é impossível” -mesmo para quem passa por uma experiência tão terrível e desumana.  ::