Lobão diz que era vítima de bullying

O músico carioca, em entrevista exclusiva ao Jornal da Tarde, conta que está lançando sua biografia, 50 anos a Mil, e fala o que pensa do governo do presidente Lula, da intelectualidade do Brasil e da ocupação militar do Complexo do Alemão

Redação

05 Dezembro 2010 | 23h20

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GILBERTO AMENDOLA

Lobão não precisa de muita apresentação. O que vocês precisam saber é que o músico carioca está lançando sua  biografia, 50 anos a Mil (Ed. Nova Fronteira, R$ 59,90), na qual conta tudo – e mais um pouco – e continua mordendo pra todo lado. Sem mais delongas:

Em sua biografia, você diz que, pela lógica dos fatos, você deveria ter se transformado num bundão. Por que essa profecia não se concretizou?
Graças à minha capacidade de abstração e o conforto com a minha vida interior.

Mas não foi a música que não te deixou virar um bundão?
Foi o rock também. Se eu tivesse ouvido chorinho e Chico Buarque de Hollanda, eu teria virado um bundão. No livro, faço uma analogia entre o Chico Buarque e o presidente Médici (Emílio Garrastazu Médici). Pra mim, a esquerda conservadora e a direita conservadora são a mesma coisa.

Acha que Chico Buarque é esteticamente ‘direitoso’?
É uma coisa conservadora. Na época, pessoas de direita e de esquerda adoravam o Chico. Pô, o Chico nunca foi um infante-terrible. Ele era o noivo que toda sogra queria. Uma pessoa que, com mais de 18 anos, começa escrevendo uma música como a Banda… (cantarola: ‘Estava à toa na vida…’). Cara! Eu tenho coisas mais sérias pra falar. Não gosto deste mundo rococó e barroco das proparoxítonas tingidas de culpa católica. Pra mim, por exemplo, a Ópera do Malandro é um conto da carochinha. É de uma ingenuidade, de uma cafonice..

Neste sentido, toda a MPB é conservadora…
Pense no choro. O choro parece uma língua morta. Quando você ouve, você é remetido ao século 19. Trata-se de um gênero feito por servidores públicos. Você não pode trocar de corda, não pode isso ou aquilo. A Bossa Nova é a mesma coisa. Aliás, a nossa Bossa já nasceu anacrônica, já nasceu velha. O nosso problema é que temos mania de sacralizar as coisas. Nós sacralizamos a Semana de Arte Moderna (1922) até hoje. Temos de rever a nossa alma brasileira. É isso que a gente quer ser?

Voltando ao livro. Você foi mesmo uma criança tímida? Sofreu muito bullying?
Muito. No livro, eu quis deixar bem claro que eu era uma vítima constante de bullying. Eu até apanhava. Eu tinha uma aparência diferente das outras crianças; minha mãe me chamava de Churupito na frente dos outros. Eu tinha um tio meio bicha louca que aparecia no meio do meu futebol. Tudo isso resultava em bullying.

O livro tem coisas intensas sobre a relação com os seus pais. A vez que você bateu no seu pai com o violão, o samba que você cantou no enterro da sua mãe…
Eu sempre falei dessas coisas. Isso me traumatizou tanto que eu acabava despejando na mídia. Eu já fui acusado de assassino de mãe, disseram que eu teria sapateado sobre o caixão dela. Tenho orgulho da minha vida e dos meus pais. Acho que as pessoas vão entender a humanidade da história. Eu não sou lunático, não sou o cara que tem um surto e sai sambando no enterro da própria mãe.

Eu não sabia que você tinha uma filha, a Júlia. Como é sua relação com ela?
O que eu podia falar sobre isso, eu falei no livro. É uma biografia comedida. Não é um vitupério. O que falei é o máximo que podia.

E sobre a questão do Herbert Vianna? Ele aparece no livro como alguém que te plagiou muitas vezes. Como foi isso?
Foi muito difícil escrever sobre o Hebert. Mas, ao mesmo tempo, foi uma catarse. Na época em que isso aconteceu, eu ficava exausto de tanto odiá-lo. Era uma situação que parecia que estavam roubando minha alma. Eu estava sendo enterrado vivo. Era muito vampirismo. Não quis retratá-lo como um facínora, mas quis mostrar com eu tive de mudar meu estilo por causa dele. Eu gravava Cena de Cinema, ele fazia Cinema Mudo. Eu tinha Me Chama, ele lançava Me Liga. Alagados (do Paralamas do Sucesso) era igual a Rock Errou. E muitas outras coisas. Se tudo isso era acidental, porque alimentar com mais pistas? A imprensa sempre ficou do lado dele. Eu ficava puto quando ele vinha com desculpas, dizia que eu era um amor, um grande talento, mas me drogava muito. Apesar disso, tentei manter uma narração decente e respeitá-lo. Essa parte do Herbert, eu escrevi com dor.

Com a morte do Cazuza e do Renato Russo, se sentiu muito só?
Eu me senti sozinho. Quem vai ficar sozinho no convés sem sua tripulação? O Chico Science e a Cássia Eller, que era um Lobão de saias, também foram perdas sentidas. Pô, eu quis pertencer a alguma coisa o tempo todo. Mas, por fim, acabei me sentido à vontade com a minha solitude.

Pela tua vivência nos morros cariocas, fico curioso em saber sua opinião sobre a ocupação militar do Complexo do Alemão.
Essa militarização e esse amor pela Justiça de farda me assustam. Fico aflito para saber como eles vão resolver o próximo passo. Como a questão da droga vai ser colocada. Essa coisa de ficar xingando usuário… Isso é ridículo. Vamos ser adultos e enxergar as coisas com clareza. Acho que ainda existe muita confusão na cabeça da população. Uma sanha, um orgulho fora de hora. Uma coisa meio Capitão Nascimento. É desse jeito que queremos discutir nossa vida? Falta honestidade e dureza com a gente mesmo.

Você acha que falta honestidade intelectual no País?
No país da bunda, cu é tabu. A boquinha da garrafa é uma misto de obscenidade atroz com oligofrenia retardatária infanto-juvenil. Quando eu disse que a Xuxa fabricava mini putas, era isso que eu queria dizer mesmo. Ela acabou fabricando a geração do axé. Pô, se nem puta beija na boca, por que as garotas de classe média ficam se glorificando de trocar 30 e 40 beijos atrás de um trio elétrico? Isso é a aniquilação da intimidade. É um desserviço ao carinho, ao afeto e à natureza humana.

Qual a sua opinião sobre o governo do presidente Lula?
O governo Lula é uma bosta. Estamos sendo achacados com impostos imorais. A nossa educação está abaixo do Burundi (país pobre da África). Vivemos a ausência total de vida inteligente. Estamos chupando um picolé amargo e achando que é doce.

O livro bate firme naquele episódio da Lei de numeração dos CD’s (ainda no governo FHC). Principalmente no momento em que Caetano Veloso e Gilberto Gil retiraram seus respectivos nomes do abaixo-assinado.
Eles combinaram comigo ao telefone e depois tramaram nas minhas costas. Essas ratazanas! Eu sabia que ia acontecer assim. Mas fiquei perplexo. Que desprezível! Eram pessoas históricas se cagando com um esporro de diretor de gravadora. E me botando no fogo por uma causa que não era só minha. Foi um vexame histórico.

Mas os chamados medalhões da Música Popular Brasileira continuam dando as cartas…
Em 92, Caetano e Gil enterraram o rock com o lançamento de Tropicália 2. O Caetano sentava no colo de Alexandre Pires e dizia que o rock era coisa de burro, que Beatles era horrível. Eles patrocinaram o axé, deixaram o axé crescer daquela maneira. Depois, aparelharam o Ministério da Cultura, com o Gil como ministro. Eu não odeio o Gil. Tem atitudes que eu recrimino. Ele é um cara de talento, mas não é isso tudo, não.

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