Slush e o cabelo: uma (modesta) contribuição para a literatura universal

carloseduardogoncalves

27 Janeiro 2016 | 13h02

Muito se fala do tal fio de cabelo, aclamado e elogiado pelos apaixonados, que desliza macio (mas às vezes não) entre os dedos dos namorados cegos de paixão. Ah, o cabelo que perfuma porque ele próprio é perfume, o cabelo que balança charmosamente de um lado a outro, etc e tal e por aí vai, mas que quando se desprende da cabeça daquele anjo em forma de gente e aterriza num prato de sopa, se torna absolutamente, repentinamente, repugnável; gerava sonhos e agora produz engulhos e contorções no rosto de quem o vê nadar tranquilo, de uma borda a outra do prato. Que transformação!

Andei pensando muito em fenômenos abruptos desse tipo nos dias de isolamento total baixo forte nevasca. E após muito filosofar, decidi deixar minha marca nos anais históricos desse tema tão curioso.

Minha contribuição para esse ramo da literatura, meus caros, tem a ver com o metamorfoseamento da neve em “slush”. Segue bem de perto a narrativa do cabelo, mas afirmo ser original.

A neve cai bela do céu, em floquinhos geometricamente perfeitos e hexagonais a nível do átomo, branca e doce como o algodão doce da nossa infância. Ela se acumula fofamente no chão, e forma um tapete belo, mas permeável, onde as crianças metem os pés a afundar-los prazerosamente. Ah, a primeira neve comove quiçá mais que o primeiro beijo. É um êxtase. É encanto. E dá pra fazer até boneco de neve, com cenoura no nariz e tudo.

Passados uns dias, no entanto, o encanto se desfaz como nos contos de fada. A verdade é que a neve, infelizmente, derrete (o cabelo não!). Ela então se suja, se mescla à toda podridão humana que jaz latente nas ruas esperando um módico de sol. Nasce então desse casamento inesperado um monstro hediondo, o “slush”. Estranha natureza que produz a borboleta a partir da feiúra da lagarta e a lagarta a partir da borboleta. O “slush”, senhores, é degeneração, é o bonito tornado feio, é o fofo transformado em escorregadio. E ele é capcioso. Já não brincam mais as crianças, de volta às aulas. Agora tombam de costas, indefesos, os adultos tentando voltar ao trabalho ou ir comprar o leite que se esgotou com a interrupção dos transportes. Sim, enquanto a neve cai, formosa, pouco importa que os víveres domésticos comecem a minguar, devagar mas continuadamente. O que é a fome, ou a vontade de um comer um docinho, frente àquela beleza da natureza? Não é nada. É amendoim, como dizem por essas bandas; nada mais que isso. Mas quando a paixão se esgota, quando a borboleta vira uma escorregadia lagarta branco-amarronzada que baba uma baba venenosa, aí o estômago subitamente desperta e exige que algo seja feito. Exige-se que a contemplação irresponsável daqueles enganadores floquinhos seja trocada por uma postura mais sisuda, mais profissional eu diria. E é aí, em meio a esse atordoamento e andando com pressa pela paisagem desolada, que o tal slush entra subrepticiamente por baixo dos seus calçados e te derruba com um golpe de judô. Sujo e dolorido, você diz a si mesmo: “eu odeio a neve!”.

Mas quando a próxima nevasca chega, arrebatadora, inclemente, você a ela se entrega com furiosa paixão. Cego, esquecido do “slush”, o mundo é um bando de borboletas brancas.

Assim somos nós, esses miseráveis e irracionais seres humanos em busca de uma alegria passageira, seja nos cabelos perfumados de um anjo, seja na angelical neve que cai do céu.