Confira na íntegra a entrevista com Arlindo Grund

Estadão

11 Setembro 2010 | 23h00

Caline Migliato


 

Arlindo Grund: Apresentador do Esquadrão da Moda, no SBT (FOTO ANDRE LESSA/AE)

Arlindo Grund: Apresentador do Esquadrão da Moda, no SBT (Foto: Andre Lessa/AE)

Como você entrou no mundo da moda?

 

Na verdade eu não entrei, ele que entrou em mim. O primeiro registro que eu tenho de imagem, de infância, é a minha avó usando uma camisa branca com uma camélia preta. E logo depois um registro que eu tenho muito forte é uma tia minha que mora no Rio, descendo no aeroporto do Recife com um Ray-Ban, uma camisa branca de alfaiataria masculina, um jeans a Ralph Lauren. Eu não esqueço nunca dessas cenas. Elas foram permeando a minha vida até hoje e como são cenas que me ligavam ao figurino, eu acabei deixando elas fazerem parte da minha vida e a partir daí começou.

Moda pra mim sempre foi um hobby até 1998. Eu lia, gostava de ver revistas e sempre pensava em participar desse universo, mas nem pensava em vir para São Paulo. Daí de tanto pesquisar e de tanto ler, acabei virando um especialista, se assim se pode dizer. Eu comecei fazendo assistência de produção de figurino para uma produtora no Recife. Depois eu fiz produção de figurino, coordenação de figurino e aí quando entrei na faculdade, eu resolvi ir com mais calma e não fazia todos os trabalhos que apareciam.No último ano de faculdade, no TCC, eu resolvi não fazer mais nada e me dedicar só para a faculdade. Depois eu entrei num MBA em marketing pela FGV e já montei meu escritório de design e publicidade. Não consigo dizer quando a moda começou. Lembro do meu pai trazendo roupa pra mim em casa e eu brigando com ele. Eu acho que eu tinha uns seis anos. E eu dizia, ‘pai não traga roupa pra mim, eu não quero roupa que vc escolhe, quem tem que escolher as roupas sou eu’.

Como é trabalhar com estilos tão diferentes no Esquadrão da Moda?

Quando eu cheguei em São Paulo, em 2003, eu comecei a fazer Estilo, Marie Claire, Playboy então, apesar de serem revistas de moda, a gente trabalha com estilos diferentes, com pautas diferentes. Não o corpo, a modelo, a não ser que seja celebridade, que aí sim são corpos diferentes. Mas aqui no Esquadrão é onde eu estou podendo vivenciar isso melhor. Um dia temos uma participante mais magrinha, outro dia uma um pouco fora do peso e no outro uma que quer porque quer continuar sendo sexy. Lidar com esses estilos está sendo uma aprendizagem pra mim. Tenho que respeitar o estilo da participante e lapidar esse estilo. Tenho a obrigação de deixá-la melhor ainda de quando chegou aqui.

Teve algum caso que pensou que não teria jeito de resolver?

Tem vários casos que são difíceis… daqueles que eu olho pra Bela (Isabela Fiorentino, que apresenta o Esquadrão da Moda junto com Arlindo), ela olha pra mim e a gente diz, ‘meu Deus do céu, essa daí não vai ter jeito, como vamos conseguir mudar essa criatura?’ É que às vezes tem pessoas que chegam com tanta certeza das suas convicções que a gente acaba meio servindo de chacota pra ela e é muito bom quando acontece isso porque num primeiro momento a participante tira uma onda da gente, diz que a gente não entende nada e num segundo momento, quando ela começa a entrar no espelho 360 graus e se ver nos flagras com aquelas roupas, cai a ficha. Já teve até um caso de no segundo dia de compras eu falar pra Bela, ‘nossa, essa mulher não tem jeito’ e quando chega no desfile final nos surpreende. Tem pessoas que criam uma certa resistência até o final mesmo. Imagina, duas pessoas estranhas falando sobre as roupas da pessoa, os valores sentimentais de determinadas roupas… É difícil, mas eu entendo elas… Mas tudo o que a gente faz é para deixá-las mais bonitas. A gente não está aqui para deixar ninguém pra baixo.

Como é seu relacionamento com a Isabela Fiorentino?

É incrível. A gente se olhou e foi uma química… é um casamento que deu certo. A gente convive muito tempo junto, a gente está todo o tempo no programa. Agora com o site não tenho mais tempo de vir no carro com ela como a gente vinha antigamente. Mesmo nossos projetos acabam impedindo da gente viver um pouco fora do Esquadrão, mas aqui a gente está o tempo todo junto. Daqui a pouco ela está chegando aí e batendo na porta pra gente fazer a edição.

Quais são seus projetos atuais, além do Esquadrão?

Eu continuo fazendo meus editoriais, minhas capas, e eu estou com o meu novo xodó que é o site (www.agrund.com). Na verdade é um reconhecimento a todo esse carinho e receptividade que o povo teve comigo e com o Esquadrão. Então lá tem notícias de moda, correspondentes internacionais que estão alimentando quase todos os dias o site. Temos editoriais de moda que são específicos para o site. Tem uma página que é muito acessada, que são de bastidores, aí tem do Esquadrão, dos editoriais para o site, campanhas. Está bem divertido. Estou muito feliz. Também vem livro dedicado para as mulheres até o final do ano e vem livro para os homens e um glossário de moda.

O que mais gosta de São Paulo?

Por incrível que pareça, não vá rir de mim, é a tranquilidade.

Como assim? (risos)

No meu segmento de trabalho, não estou falando do Esquadrão, mas de editoriais, de trabalhar com moda, você não tem um dia a dia de chegar na empresa às 7 da manhã, bater o ponto, fazer obrigações que você deixou de fazer no dia anterior. Então é muito engraçado, porque no Recife eu vivia muito isso. Acordava às 8 horas da manhã, para estar às 10h no escritório, às vezes ia para o mestrado, ao meio-dia estava almoçando com a família, às 14h já estava dando aula na faculdade, às 17h estava no escritório, às 19h tinha que estar em determinado lugar… Então existia essa agenda, essa rotina, tudo muito previsível. Aqui em São Paulo não, já tive dias de não precisar trabalhar durante a semana, então eu tenho um domingo numa quarta-feira, por exemplo. Essa é a tranquilidade. Também já aconteceu de não ter noite, sábado, nem domingo… Mas como é uma coisa que eu adoro fazer vale a pena.

Qual é a princpal diferença que notou entre Recife e São Paulo?

O que eu observo é a receptividade das pessoas. Aqui em São Paulo os profissionais não têm muito tempo de estar recebendo um carinho. O profissionalismo vem primeiro. No Recife existe o profissionalismo, mas existe o carinho. Existe uma maneira até pela colonização pernambucana, o engenho, de tratar as pessoas com mais carinho, sem ser rude, como é aqui em São Paulo. Aqui as pessoas não têm tempo para carinho, elogios. É a maneira como os profissionais tratam os outros.

Por que você veio para São Paulo?

Chegou uma certa hora no Recife que não tinha mais para onde crescer. De repente, o Fábio Paiva, que é meu sócio, estava em São Paulo e recebeu um convite do Paulo Martinez para voltar a atuar na área de moda, que ele já trabalhava há 20 anos e tinha ido para Recife por questões familiares. Então ele voltou para São Paulo, nossa empresa começou a faturar bem e eu disse que não ia mais ficar no Recife, que eu iria para São Paulo e montaríamos nosso escritório. E nós já temos nosso escritório montado, que é a redação do site e nosso acervo também.

Adotou São Paulo de vez?

Adotei São Paulo e fui adotado pelos paulistanos. Sou muito bem recebido em todos os lugares que vou, em todas as redações que eu chego, em todas as televisões. Não tenho nada para falar das pessoas, de São Paulo, nem do trânsito eu posso reclamar (risos).

Como você definiria São Paulo?

Trabalho. Só isso… trabalho.

Como você acha que as paulistanas se vestem, comparado às mulheres de Recife?

Eu vejo uma heterogeneidade muito grande nas mulheres paulistanas. Até porque é o coração financeiro do Brasil. Então a gente tem desde as executivas, donas de lojas, mulheres que não trabalham e sobrevivem da renda do marido. A gente vê muito estilo numa cidade só. Você vê mulher brega, do lado de mulher chique, executiva que está super bem vestida ao lado de executiva super mal vestida e a diferença básica é que aqui em São Paulo a gente tem as quatro estações, pelo menos tinha. No Recife não, só temos o verão. Há três semanas eu estava no Recife e foi a primeira vez que eu senti frio. Estava 20 graus. Para Recife isso é frio, mas pra gente isso aqui é uma delícia. O que eu não admito é que no Recife está 20 graus e as mulheres já colocam botas de couro, casacos de couro, tricô, lã… Isso me dá uma aflição… Basicamente é essa a diferença. É a adequação que a paulistana tem em relação às estações do ano e que a mulher pernambucana está começando a aprender agora.

As paulistanas cometem algum crime em relação à moda?

Sim! Eu vejo muito aqui, todos os dias, a bota quebra-pé. Sabe qual é? Aquelas de rave, que tem o salto enorme, de madeira ou de borracha, vem talhado, esculpido… Eu vejo isso todo dia aqui… No Recife eu não vejo isso, até porque o clima do Recife não permite que você use bota. Mas no Recife eu vejo muito as sandálias com esse tipo de salto. Fico muito incomodado com as botas aqui e as sandálias lá. É tipo um tijolo com piche (risos)!

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