Rio de Janeiro
sexta-feira, 17 de agosto de 2007, 15:10 | Online
População de favela tem treinamento militar como rotina
Técnicas do ponto-forte e de incursões coordenadas foram usadas pelo Exército na Mangueira em 2006
Tahiane Stochero, enviada especial
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Moradora da favela desde 1964, Vanilda Alves Cruz, 69 anos, secretária da associação de moradores que abrigou o cativeiro invadido pelo Exército, vibrava com a incursão. "A gente gosta deles aqui. Nos divertimos muito com os treinamentos e mantém aquele respeito que a favela tem de não abrigar bandidos. As crianças podem correr na rua sossegadas que não tem perigo. Eles deveriam ir para outras favelas também", acredita ela.
O serralheiro Zé Luis e sua mulher, Lucélia, concordam. "Aqui não tem crime porque o Bope está sempre presente. Tinha de ser feito isso em outras favelas do Rio. É só a polícia entrar e não sair mais, como fizeram aqui. Não adianta eles entrar e sair no dia seguinte. O caveirão do Bope mora aqui do lado, mas na favela nunca precisa ser usado", afirma Zé Luis.
Mas, nem sempre a situação foi assim na Tavares Bastos. De agosto a dezembro de 2000, a tropa de elite da PM fez uma série de operações, dominando o prédio que hoje abriga a sede dos "homens de preto". Na época, a edificação estava abandonada, sendo utilizada apenas como QG pelos bandidos.
"Hoje eu ando com farda e desarmado aqui na favela. Aonde mais eu poderia ir assim aqui no Rio? O que aconteceu aqui é que a comunidade teve que fazer uma escolha. Eles pagam luz, água, gás, o governo entra aqui. Abriram mão de ter as coisas pagas pelo tráfico em prol da segurança. Isso não tem valor e por isso deu certo", afirma o comandante do Bope, tenente-coronel Alberto Pinheiro Neto.
A presença de um quartel-general no coração do morro vai ao encontro à técnica utilizada pelo Exército no Haiti e que, segundo o tenente-coronel Novaes, é um dos segredos do sucesso dos brasileiros na pacificação das regiões mais violentas do país caribenho.
Após grandes operações, os militares transformam uma edificação alta até então utilizada pelos bandidos em um "Ponto-Forte", espécie de base avançada a partir da qual buscam consolidar sua presença na região e irradiar influência. O objetivo é a conquista e a atuação dentro do território do inimigo . "A gente entrava no lugar problemático e ficava, não saía mais", diz o oficial.
Novaes aponta que a estratégia pode ser transportada para qualquer lugar do mundo, inclusive para o Rio de Janeiro, assim como a forma como são realizadas as megaoperações comandadas pelo Brasil no Haiti: incursões coordenadas em vários locais ao mesmo tempo, iludindo os criminosos sobre a real intenção dos militares.
A tática, testada por Novaes em 2005 quando comandou tropas no terceiro contingente brasileiro no Haiti, foi colocada em prática na Mangueira quando o Exército subiu o morro para recuperar as armas roubadas: as tropas avançaram pela frente do morro até uma linha imaginária a partir da qual receberiam ataque dos criminosos. Enquanto os traficantes se mobilizavam para conter o avanço dos militares por um lado, soldados tomaram o morro do outro lado, pelas costas dos bandidos.
"Quando viram, a gente já estava lá encima, no topo da Mangueira, e eles não tinham saída. A área era nossa. A resistência que enfrentei na Mangueira foi muito menor do enfrentávamos no Haiti. Quando tomamos o topo, não havia outra solução. Se descêssemos, seria difícil subir novamente. Resolvemos então ficar para manter nossa presença, instalando pontos-fortes no morro", lembra o tenente-coronel Novaes.
Ele aponta, contudo, que para cada situação devem ser analisados diversos aspectos do terreno, condições das forças adversas, o armamento que será emprego e o objetivo da missão, para que seja planejada a melhor maneira de atuação.
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