Rio de Janeiro
terça-feira, 11 de setembro de 2007, 17:03 | Online
Líder comunitário disse ao Estadão que seria assassinado
Em junho, vítima chegou a dar nomes de quem planejava seu assassinato; agora eles são investigados
Alexandre Rodrigues, do Estadão

Ouça entrevista concedida em junho
O líder comunitário foi baleado e seqüestrado na última sexta-feira em Rocha Miranda, na zona norte do Rio. A polícia investiga se um cadáver mutilado e carbonizado encontrado na zona oeste da capital fluminense é dele. Jorge procurou o Estadão há três meses para denunciar o suposto desaparecimento de 200 pessoas da Kelson's, segundo ele todas mortas ou expulsas pelo grupo de policiais militares que integrava a milícia que havia ocupado a comunidade em novembro do ano passado.
Em entrevista ao Estadão, no dia 5 de junho, ele revelou o plano para matá-lo e citou nominalmente os nomes dos três policiais como seus potenciais assassinos. Jorge conhecia bem os PMs que integravam o grupo clandestino que cobrava dos moradores por uma suposta segurança porque foi, durante algum tempo, aliado dos milicianos. Ele foi posto na presidência da associação de moradores pelos próprios policiais que denunciaria mais tarde.
Ele admitiu à reportagem que apoiou a instalação dos milicianos e teve vantagens com isso. Entre elas, a permissão para explorar um depósito de gás (uma das atividades que costumam ser monopolizadas por milicianos em favelas do Rio). Ele também tinha um quiosque de lanches numa praça da comunidade. No entanto, disse, começou a se desentender com eles depois que os policiais se apropriaram do seu comércio e interferiram na distribuição de cestas básicas para a comunidade.
Na entrevista, o líder comunitário contou que no dia 5 de abril deste ano, seu trailer foi saqueado pelos milicianos. Ao buscar satisfações na associação com dois prepostos dos milicianos, Jorge recebeu, por telefone, a sentença de expulsão do cabo Batista. O PM, segundo ele, estava de serviço no batalhão de Bangu (14º BPM). "Ele disse que eu estaria expulso da minha casa e que a associação não precisava mais de presidente. Mandou dizer que eu não retornasse mais à comunidade para não sofrer um 'acidentezinho', que a gente sabe que seria um óbito, né? É obvio isso. Eu seria morto", disse Jorge.
Jorge disse ter sido procurado, no dia seguinte ao da expulsão, por um vizinho que teria contado a ele sobre uma reunião dos três policiais para traçar o plano do seu assassinato no Conjunto Habitacional Bento Cardoso, na Penha (zona norte). O lugar é o mesmo apontado por uma denúncia anônima como cenário de uma reunião dos cabos Barcellos e Oliveira com outros colaboradores um dia antes do seqüestro de Jorge. "Essa pessoa me falou de que foi feita uma reunião num local conhecido como Bento Cardoso e que esse cabo Alexandre Batista junto com o cabo André Luiz Oliveira, que é o cabo Oliveira, que também é chefe da milícia, e o cabo Barcelos e outros policiais teriam se reunido e teriam decretado a minha morte. Que eu deveria ser morto por estar incomodando o andamento do trabalho", contou. "Essa pessoa me falou: não fica boiando por aí não. Some para algum lugar porque eles vão te caçar".
No dia da sua expulsão, Jorge disse ter registrado o saque ao seu trailer e a ameaça de morte na delegacia da Penha (22º DP). Ele também disse ter procurado o serviço reservado e a corregedoria da Polícia Militar, a Corregedoria Geral Unificada da Secretaria de Segurança, o Ministério Público e políticos militantes dos direitos humanos. Ainda em junho, o Estadão procurou essas autoridades que confirmaram os contatos. No entanto, todas manifestaram desconfianças em relação ao líder comunitário.
Além da denúncia do desaparecimento de 200 pessoas parecer inverossímil, havia a suspeita de que Jorge poderia estar exagerando na história incentivado pelos traficantes expulsos da comunidade, que planejavam voltar. Ao Estadão, Jorge negou defender os interesses de traficantes, mas admitiu ter contato com familiares dos criminosos que também teriam sido expulsos da comunidade pela milícia. Policiais civis informaram que Jorge seria investigado e o Estadão decidiu acompanhar o trabalho antes de publicar a entrevista.
Leia na edição de quarta-feira a reportagem completa e os principais trechos da entrevista
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Favela da Kelson's,
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