quinta-feira, 18 de setembro de 2008, 17:37 | Online
Figueiredo: risco sistêmico como o de hoje só em 1930
Para o sócio-diretor da Mauá Investimentos e ex-diretor de Política Monetária do banco Central o risco de o mundo mergulhar em uma crise sistêmica não é nada desprezível
Luciana Xavier e Lucinda Pinto
- Ouça entrevista com Luiz Fernando Figueiredo
"A gente chegou num ponto inimaginável da história recente que é de certo processo de bola de neve. Olhar um risco sistêmico da forma como olhamos hoje provavelmente isso a gente só viu em 1930, mas numa situação absolutamente diferente da atual", afirmou.
De acordo com Figueiredo, os bancos centrais das principais economias do mundo estão fazendo sua parte ao injetar liquidez num mercado onde impera a aversão ao risco, o que não significa que esse tipo de ação resolva o problema.
"O Fed e outros bancos centrais têm feito um trabalho de prover liquidez. Mas a questão é maior do que a questão da liquidez. Num cenário desses, que se retroalimenta, prover liquidez é paliativo, mas não resolve a situação. A questão não é só mais de liquidez e dificuldade de rolar os ativos. Há todo um clima negativo e toda vez que não se antecipa a esse clima e reage a ele, você tem mercado contra você. Segundo ele, a questão agora não é mais de apenas prover liquidez ao mercado", avaliou ele.
E continua: "Uma chance bem razoável de resolver ou estancar o problema seria algum instrumento que garanta que os bancos em geral, do ponto de vista sistêmico, estão preservados, e não um banco isoladamente", avaliou Figueiredo. Esse instrumento, segundo ele, poderia ser algo como o Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional) ou o Resolution Trust Corporation (RTC).
O Proer foi criado no governo de Fernando Henrique Cardoso, nos anos 90, com o objetivo de recuperar instituições financeiras em problemas. O RTC surgiu no fim da década de 80 para assumir as instituições de poupança e empréstimo falidas na crise dos Savings and Loans (S&Ls) e depois as revendê-las.
"Poderia ser um fundo com muitas centenas de bilhões de dólares para compras de ativos em geral, porque hoje não tem comprador para ativo, a não ser para ativos que não têm risco, como os Treasuries. O restante não tem compradores, só vendedores e por isso é preciso medidas radicais. É um pouco aquela história: se o mercado precisa de 5, você tem que mostrar que tem 7, 8, 10 a disposição. E isso não é um ataque, é totalmente um processo de defesa", afirmou. "Mas há dificuldade de se criar um fundo em ano eleitoral. E há urgência".
De acordo com Figueiredo, com maior aversão ao risco e menor liquidez, "vários ícones tem ficado pelo caminho", como o Bear Stearns, Lehman Brothers e AIG. "É um processo que, infelizmente, se retroalimenta", comentou.
Figueiredo disse, no entanto, que as intervenções do Fed nas instituições financeiras têm sido "absolutamente necessárias". "Se o Lehman tivesse sido salvo, talvez estaríamos melhor", disse. Ele disse que outras instituições podem estar correndo o mesmo risco que o Lehman, mas acredita que a tendência é que o Fed não deixe que isso aconteça.
Para Figueiredo, essas intervenções ou socorros do Fed não significam que o governo norte-americano queira estatizar o setor financeiro ou transformar o país no Estado da União Socialista da República da América, conforme critica feita recentemente pelo professor Nouriel Roubini em artigo. Para ele, a situação atual foi gerada no passado, pela falta completa de regularização dos bancos nos EUA. "Agora querem colocar o culpa no bombeiro e não em quem acendeu o fósforo".
O sócio-diretor da Mauá Investimentos disse que nos últimos dias "a possibilidade de recessão mundial aumentou de maneira considerável". "E as soluções ficaram mais difíceis. Não é mais um processo racional".
Saída
O Banco Central brasileiro terá que dar logo mais liquidez ao sistema para fazer frente à crise global, avaliou Figueiredo. A afirmação foi feita pouco antes de o presidente do BC, Henrique Meirelles, anunciar que irá promover leilões de venda de dólares conjugados com compra no mercado futuro visando corrigir distorções de liquidez no mercado.
Figueiredo apresentou um "menu de medidas" que poderiam ser adotadas pelo BC neste momento mais adverso. "Hoje, existe uma escassez importante de linhas de exportação. E o Banco Central, como já fez no passado, poderia lançar mão de operações que gerem liquidez principalmente para operações de exportação, para adiantamento de contrato de câmbio e coisas desse tipo, porque hoje está muito seco", disse.
"Segundo, num momento de muita volatilidade, poderia antecipar o vencimento do swap cambial que tem no final do mês de US$ 2 bilhões e o mercado passaria a estar comprado em câmbio se ele antecipasse o vencimento. Terceiro, seria uma intervenção no mercado de câmbio se tiver má formação de preço e maior dificuldade. E, se houver alguma situação mais adversa em termos de liquidez, poderia haver alguma redução de compulsório. Porque a situação financeira do Brasil é muito saudável, mas o compulsório ainda é muito elevado. E para mostrar austeridade fiscal, o governo poderia se comprometer no ano que vem com o spread fiscal primário em 4,30% ou mais do que isso", explicou o ex-diretor do BC.
Diante da crise, Figueiredo disse ainda que o BC poderá ser obrigado a mudar a política de aperto monetário, embora tenha ressaltado que ainda não está claro se o BC terá que parar com a alta de juro em outubro. "Até outubro é muito tempo para olhar".
Desaceleração
O Brasil não está imune à crise global e, assim como outros países, deverá crescer bem menos do que se imaginava no ano que vem, avaliou Figueiredo. Há apenas algumas semanas, antes de os mercados serem tomados pelo pânico, ele esperava que o País pudesse crescer de 3% a 3,5% em 2009. Agora, reconhece que é maior o risco de o crescimento ser bem menor que 3%. "O Brasil é um País robusto e preparado para a situação atual. O que não significa que não vá sofrer", disse.
Figueiredo disse que o aperto no lado do crédito já começa a ocorrer no Brasil. "O crédito será mais seletivo, mais caro", disse. Com crédito mais difícil e perspectiva de crescimento menor da renda, o consumo deve cair.
Os investimentos, por sua vez, tendem mostrar um volume de investimento "bastante menor por falta de caixa" e receio de demanda futura mais baixa. "Não estou falando que a economia brasileira vai entrar em colapso. Mas se havia alguma dúvida de que o País iria entrar em um processo de desaceleração, essa dúvida se reduziu praticamente a zero", comentou.
Na avaliação de Figueiredo, medidas para atrair investimentos são bem-vindas, como pretende o BNDES ao anunciar que quer atrair para o Brasil fundos soberanos estrangeiros e empresas de private equity para compensar a escassez de crédito internacional.
"Isso vai ajudar. Mas o Brasil, como o resto do mundo, vai desacelerar mais, porque não estamos em uma Ilha da Fantasia ou Ilha da prosperidade, enquanto o resto do mundo está sofrendo. O Brasil também vai sofrer. Mas num País numa situação melhor do que no passado, o sofrimento quer dizer menor crescimento, não colapso".
Figueiredo afirmou ainda que não vê o dólar se sustentando nos níveis elevados atuais e que, no caso da Bovespa, o momento pode ser de compra. "É momento de compra, mas com muita cautela", aconselhou.
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