segunda-feira, 29 de setembro de 2008, 20:24 | Online
Pacote será aprovado; risco agora é Europa, alerta Kanczuk
"Lá os bancos têm uma alavancagem gigante e são imensos", afirma Fábio Kanczuk, professor da USP
Cláudia Ribeiro, do estadao.com.br
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Kanczuk explica que o total do pacote, de US$ 700 bilhões, representa 5% do Produto Interno Bruto (PIB) e que há condições financeiras para que o governo do país libere estes recursos. O professor explica que hoje a dívida pública americana está em US$ 9,6 trilhões. Isso equivale a 65% do PIB - bem melhor do que o Japão, 182% do PIB, ou Itália, 106%.
Para o professor da USP, o maior risco agora são os possíveis problemas com os bancos europeus. "Politicamente lá as coisas são muito mais lentas, muito mais complicadas. Lá os bancos têm uma alavancagem gigante e são imensos. Além disso, os políticos são muito mais atrapalhados e as questões não são tratadas de forma organizada. Alguns bancos grandes ficaram muito maior que o país onde estão instalados", avalia.
Veja abaixo os principais pontos da entrevista com o professor Kanczuk:
1. A aprovação do pacote é suficiente para acalmar os investidores?
A gente nunca tem certeza do tamanho do buraco, mas é um plano que tem potencial para acalmar o mercado, que funciona de maneira meio louca. Há dois extremos. No primeiro, os projetos de empresas são realizados, as pessoas pagam suas contas. O outro cenário é o de corrida bancária. Todo mundo desconfia do sistema e vai sacando dinheiro a jato. O que a gente tem visto nos Estados Unidos, e agora também na Europa, neste final de semana, é sinal de que estamos neste cenário de inferno, que é o da corrida bancária. A única forma para resolver isso é mostrar para as pessoas que você tem um monte de dinheiro e que quem precisar de dinheiro vai ter. Basta você mostrar isso, que este clima ruim muda. Neste pacote, US$ 700 bilhões parece ser dinheiro suficiente para evitar esta corrida bancária, mas há tanto desespero hoje no mercado, que nem dá para garantir que este dinheiro estancaria este pânico.
2. E por que o pacote não foi aprovado?
A não aprovação do pacote é apenas uma questão política, não tem nada a ver com falta de dinheiro, que está sobrando lá. No limite, você poderia imprimir dinheiro, o que gera inflação, mas nem é preciso isso. A dívida dos Estados Unidos é baixa, de 65% do PIB. O pacote US$ 700 bilhões é mais 5% do PIB. Em outros países, a proporção da dívida sobre o PIB é muito maior. Portanto, o plano só não foi aprovado por uma questão política. É o contribuinte americana pensando "por que eu tenho que dar meu dinheiro para salvar os bancos?". O pior é que as pessoas ainda não perceberam que vai sobrar para todo mundo, não tem nada que fique apenas em Wall Street agora.
3. Você acredita que a necessidade de aprovação do pacote vai superar esta questão política?
Eles vão chegar a um acordo, não tem jeito. É só questão de tempo, de briga, de tentar convencer, mas tem que chegar ao acordo. Não tem louco lá. No Brasil, eu teria medo, mas nos Estados Unidos isso é garantido. No fim, o bom senso sempre domina lá.
4. Qual é o maior problema hoje?
O maior problema hoje são os bancos grandes europeus. Lá, politicamente, as coisas são muito mais lentas, muito mais complicadas. Então, se estes bancos apresentarem problemas, a situação vai se complicar. Os bancos têm uma alavancagem gigante e são imensos. Além disso, os políticos são muito mais atrapalhados. As questões não são tratadas de forma organizada. Muitos bancos grandes também ficaram muito maior que o país onde estão instalados. Exemplo disso é o Deutsche Bank, que é um banco gigante perto da Alemanha. Ou seja, se os problemas acontecerem lá, os riscos serão muito maiores.
5. E no Brasil, quais os problemas?
O problema aqui é a economia mesmo. As incertezas e o desaquecimento econômico estão deixando os bancos menos dispostos a emprestar dinheiro. Ninguém quer assumir risco e isso está acontecendo em um ritmo muito forte, muito rápido. A impressão que eu tenho é que teremos uma situação muito parecida com a de 1996, antes da crise da Ásia. Naquela época, acabou o crédito, acabaram as compras de eletrodomésticos, sobraram estoques, as empresas pararam de vender. Agora será parecido, mas com outros produtos, como carros e imóveis. É um aperto no crédito muito forte, que deve reduzir muito o crescimento econômico no Brasil.