terça-feira, 30 de setembro de 2008, 17:25 | Online

Bovespa sobe mais de 7%, mas acumula queda de 11% no mês

No mercado de câmbio, dólar acumulou forte alta de 16,79% em setembro, maior valorização mensal em 6 anos

SÃO PAULO - As incertezas sobre a economia norte-americana e os impactos da crise financeira nos Estados Unidos, com influências sobre outro países, não saíram do cenário, apesar da recuperação das bolsas nesta terça-feira. Entre os investidores, continua a expectativa de aprovação do pacote de ajuda aos bancos nos EUA, no total de US$ 700 bilhões, e o governo americano deu sinais de que está trabalhando para que um acordo saia do papel.

 

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Com esta expectativa, as bolsas nos Estados Unidos fecharam em forte alta. O índice Dow Jones subiu 4,68% e a Nasdaq fechou em alta de 4,97%. No Brasil, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) fechou com alta de 7,63%, aos 49.541 pontos, patamar máximo do dia. Contudo, mesmo com a forte valorização das ações nesta terça, a queda acumulada em setembro é de 11,03%.

 

O dólar fechou em forte queda nesta terça-feira seguindo a recuperação dos principais mercados acionários com a expectativa de que o plano bilionário de ajuda ainda seja aprovado. A moeda norte-americana caiu 3,30%, a R$ 1,902. Ainda assim, no mês de setembro, a divisa acumulou forte alta de 16,79%, maior valorização mensal em seis anos.

 

Logo cedo, depois de remoer a inesperada derrota no Congresso ontem, o presidente dos EUA, George W. Bush, fez um pronunciamento apelando para a aprovação de um novo socorro ao sistema financeiro. Segundo ele, o governo norte-americano não vai sossegar enquanto não aprovar alguma medida. "A rejeição da proposta na Câmara não encerrará a intenção do governo de lançar um plano de resgate", disse ele, defendendo a urgência da aprovação em função de seus efeitos na economia.

  

Os analistas também consideraram que a intervenção no banco franco-belga Dexia por três governos europeus foi acertada por ter sido rápida. Nuances da crise onde um dia uma notícia é negativa e em outro, a mesma informação pode ter conotação favorável.

 

 

Ontem, por exemplo, o banco Bradford & Bingley foi estatizado pelo Reino Unido, o belgo-holandês Fortis precisou receber socorro dos governos da Bélgica, de Luxemburgo e da Holanda e o alemão Hypo Real foi resgatado por um consórcio de bancos. E nada disso foi visto com bons olhos. Mas, hoje, a ação dos governos da Bélgica, França e Luxemburgo ao injetar US$ 9,19 bilhões no Dexia foi considerada ágil e agradou.

 

 

Os analistas também passaram a considerar que os BCs globais vão cortar suas taxas de juros para tentar injetar ânimo no sistema. E, se isso realmente acontecer, a demanda volta a crescer. Com isso, o petróleo subiu. Na Bolsa de Nova York, o preço do barril do petróleo avançou 4,43%, para US$ 100,64.

 

Pessimismo

 

Mas os números de fechamento das bolsas não impressionam os economistas. Entre eles, o clima ainda é de muito pessimismo. Isso porque o fôlego desta terça vem da perspectiva de que o governo dos EUA consiga reverter a derrota de ontem, ainda que parcialmente. A avaliação, no entanto, é que, mesmo que isso ocorra, o cenário global piorou significativamente.

 

"O que ocorreu ontem tornou velhos todos os indicadores, números correntes e projeções. O risco dos cenários aumentou dramaticamente. Não se sabe para onde a economia irá nas próximas semanas", disse o economista-chefe do WestLB, Roberto Padovani, que era otimista em relação à capacidade que a aprovação do plano nos EUA teria de levar os mercados à normalidade.

 

Padovani acrescentou que, agora, não se vislumbra uma solução de curto prazo para a crise bancária e que a situação é de "zeragem total de liquidez (recursos)". Ele avalia que os agentes econômicos devem permanecer cautelosos e que o momento atual pode vir a representar uma ruptura.

 

O economista-chefe da Mauá Investimentos, Caio Megale, avalia que ainda que o pacote norte-americano seja remodelado e aprovado, o efeito que a rejeição de ontem teve nos mercados e a demora em achar uma solução para a crise do crédito terão um impacto "brutal" na economia real.

 

"Todos os indicadores que estão saindo mostram desaceleração econômica além do esperado, principalmente nos países emergentes", disse ele, lembrando que até o Indicador de Nível de Atividade (INA) da indústria paulista, divulgado ontem, apresentou resultado fraco. A queda foi de 3% em agosto sobre julho, com ajuste sazonal, e é a maior desde abril de 2006 no mesmo tipo de comparação, quando ficou em -7,5%. "Teremos muitas dor de cabeça pela frente", acrescentou.

 

O economista-chefe de macroeconomia da LCA, Bráulio Lima Borges, também confia que o pacote norte-americano ainda seja aprovado ou que o Federal Reserve assuma o socorro às instituições financeiras. Ainda assim, faz coro ao afirmar que o agravamento da crise nos últimos dias já trouxe seqüelas para a economia mundial. Ele avalia que a Europa, que já enfrentava dificuldades, afundará ainda mais. Nos EUA, estima que os próximos indicadores mostrarão novo enfraquecimento da economia.

 

Efeitos no Brasil

 

No Brasil, segundo Borges, o efeito ocorrerá na oferta de crédito. A mudança será sentida em volumes, porém mais ainda em prazos. "Isso deve provocar um ajuste na dinâmica da economia e o desaquecimento deve ser mais do que o previsto", disse Borges. Ele espera expansão de 3,7% do PIB em 2009, caso o pacote dos EUA seja aprovado, cenário para o qual atribui 65% de chances de concretização. Antes do agravamento recente da crise, o PIB do ano que vem era projetado em 4%.

 

Já na eventualidade de que as medidas para socorrer o sistema financeiro dos EUA não sejam mesmo adotadas - cenário ao qual atribui 35% de probabilidade - a perspectiva de Borges é de uma expansão de somente 2% do PIB em 2009 no Brasil. Nesse caso, o economista vislumbra economia fraca também em 2010 e recuperação somente em 2011.





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