segunda-feira, 13 de outubro de 2008, 09:20 | Online

Em meio à crise, empresas têm que pagar US$ 15 bi ao exterior

Bônus vencem e brasileiros devem ter dificuldade para pagar empréstimos, com dólar alto e crise de confiança

Giuliana Vallone, do estadao.com.br

SÃO PAULO - Em meio à crise de crédito e à valorização do dólar no Brasil, as empresas brasileiras terão que pagar, até o fim do ano, US$ 15 bilhões em empréstimos tomados no exterior, segundo estimativa dada ao estadao.com.br pela especialista em finanças Tereza Maria Fernandez, da MB Consultores. Ela explicou que esse é o valor dos bônus emitidos por essas companhias que vencerão até dezembro.

 

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Quando tomam um empréstimo externo, as empresas ficam com o dinheiro e emitem bônus, que tem vencimento em um determinado número de anos. Quando o prazo vence, ou elas renegociam esses bônus, ou têm que pagar sua dívida integralmente, em dólares. Com a escassez de crédito mundial que se originou nos problemas do mercado imobiliário nos Estados Unidos, fica mais difícil de renegociar essa dívida, já que os credores estão enrijecendo seus critérios, com medo de levar um calote.

 

Além disso, com a disparada do dólar no Brasil, essa dívida ficou mais cara. Isso porque a moeda norte-americana, que chegou a ser cotada a menos de R$ 1,65 em meados de julho, bateu nesta sexta-feira, durante as negociações do dia, R$ 2,30. Assim, uma dívida de US$ 1 milhão, por exemplo, que antes custaria a uma empresa R$ 1,65 milhão, pode chegar agora a US$ 2,3 milhões.

 

Assim, essas empresas terão mais dificuldade para pagar ou renegociar suas dívidas, diante do novo cenário mundial. Tereza explicou que existem duas soluções: "A empresa que tiver o dinheiro, compra dólares aqui e paga no exterior. Quem não tiver, toma dinheiro emprestado aqui no Brasil". No País, porém, os problemas no crédito também já começam a aparecer, e os bancos estão cautelosos com os empréstimos, o que pode criar barreiras para essa última solução.

 

Mas, para Tereza, isso pode não ser um grande problema. "Essa empresa tem diversas formas de conseguir o dinheiro. Pode ir ao banco em que costuma pegar crédito usualmente, seu banco fornecedor, pode dar o que comprou com o dinheiro emprestado como garantia, entre outros", disse. "Só vai ficar difícil mesmo para quem não tem crédito ou quem já está apresentando problemas em meio à crise."

 

Para o mercado brasileiro, esse montante também pode ser prejudicial pois pressiona ainda mais o câmbio. Isso porque esses dólares para pagar a dívida serão comprados aqui, onde o mercado já está pressionado e a moeda se valoriza a cada dia. Esse cenário já levou, inclusive, o Banco Central a utilizar parte das reservas internacionais do País para realizar leilões diretos de dólar.

 

Crise de Confiança

 

Em seminário realizado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) para discutir a atual turbulência, Tereza afirmou que, para ela, o grande problema no cenário mundial é que a crise nos Estados Unidos gerou uma "crise de confiança jamais vista". Ela elogiou a ação rápida dos Bancos Centrais de diversos países, e previu que os efeitos dessas medidas ainda levarão entre duas e três semanas para surgirem.

 

A economista alertou, porém, que ainda haverá muita oscilação nos mercados. "Ainda vamos ter momentos de altas e baixas porque as pessoas estão inseguras", disse. "O mercado só vai se acalmar quando a pergunta 'quem é o próximo não estiver mais no cenário."

 

Brasil

 

Os participantes do debate alertaram, porém, para os efeitos da crise no Brasil. O economista da WAY Investimentos, Alexandre Espírito Santo, afirmou que a turbulência vai reduzir o crescimento brasileiro em 2009 e explicou em que setores a crise atinge, de fato, o País. "O crescimento é puxado pelo consumo das famílias, investimentos e exportações. O aperto de crédito reduz o consumo e produz uma queda significativa no investimento estrangeiro", disse.

 

Ricardo Troster, ex-economista chefe da Febraban, afirmou que o empobrecimento mundial causado pela crise também vai reduzir a demanda por produtos brasileiros no exterior, o que reduz as exportações do País - o terceiro pilar do crescimento segundo Espírito Santo. "Todo mundo começou outubro mais rico do que vai terminar", avaliou.

 

O economista da WAY Investimentos acredita que o crescimento previsto para o País no ano que vem pelo Fundo Monetário Internacional, de 3,5%, ainda é alto. "Eu acho que 3,5% é para soltar morteiros. Acho que não chega a isso."

 

Ele afirmou, porém, que o Brasil "vem fazendo a lição de casa" e mesmo afetado pela crise, pode não sofrer tanto com ela. "Teremos ainda momentos de crise, mas sabendo que o Brasil vende produtos de que o mundo precisa, a situação pode melhorar no médio e longo prazo", completou Tereza.


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