Sexta-Feira, 27 de Julho de 2007 | Versão Impressa
Sem poder para demitir, Lula pede aos 5 diretores da Anac que saiam
Pela lei, mandatos na agência são fixos, mas presidente considera afastamento essencial para arrumar setor aéreo
Caso a renúncia coletiva da direção não ocorra, Lula vai discutir com o novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, o que poderá ser feito, na tentativa de facilitar a reorganização do setor aéreo. Depois de se referir à Anac como um ''''problema legal'''', Jobim assumiu o cargo ontem afirmando que o modelo da agência engessa o setor. Ele defende a tese de que não se pode universalizar o conceito de agência reguladora e está disposto a discutir com o Congresso eventuais mudanças.
''''Vou examinar, estudar e ver se a modelagem da Anac serve para a aviação brasileira. Se precisar alterar, vamos alterar'''', afirmou o ministro. ''''Não podemos ficar engessados.'''' O governo, no entanto, ainda não está decidido a articular com o Congresso uma modificação na lei que criou a Anac para permitir a demissão dos dirigentes.
Para o ministro, existe uma ''''generalização'''' na questão das agências, embora, a seu ver, o modelo genérico de órgão regulador pode não servir para todos os setores da economia. ''''Eu me pergunto se o modelo de agência deve ser igual para todas as áreas. Não tenho noção clara, mas terei'''', disse Jobim, que quer se encontrar, nos próximos dias, com o presidente da Anac, Milton Zuanazzi - cujo mandato vai até 2011.
Na entrevista de ontem, o novo ministro evitou críticas à indicação de Zuanazzi, que é afilhado político da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e do ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia. Jobim adiantou apenas que não aceitará indicações com origem em interesses partidários.
Enquanto as mudanças na agência não acontecem, a determinação de Lula é de que o Conselho Nacional de Aviação Civil (Conac) se reúna pelo menos uma vez por semana para acompanhar a execução, pela Anac, das medidas que o governo considera fundamentais para a melhoria do setor aéreo. A próxima reunião já está marcada para segunda-feira. No fim de semana, o presidente Lula já deverá receber do novo ministro a primeira radiografia do setor.
Nas conversas com auxiliares e interlocutores, o presidente Lula mostrou-se ''''aliviado'''' e ''''muito agradecido'''' a Nelson Jobim por ter aceito o cargo no momento mais grave da crise. Por isso mesmo, já avisou, terá ''''carta branca'''' e ''''autonomia'''' para agir e não será pressionado. Lula mostrou-se, também, ''''muito preocupado'''' com a forma como Waldir Pires saiu do governo. Há uma possibilidade até de ele ser aproveitado no governo da Bahia, comandado pelo petista Jacques Wagner.
Lula pediu a Jobim que vá hoje ao Instituto Médico-Legal de São Paulo, onde está sendo feito o reconhecimento dos corpos do acidente com o Airbus da TAM. O presidente mostrou-se, segundo interlocutores, ''''consternado'''' com o sofrimento dos familiares das vítimas. Ele confidenciou que gostaria de entender exatamente por que está demorando tanto o trabalho de identificação das vítimas. Para ele, isso leva a um ''''segundo sofrimento''''.
AÇÃO DA OAB
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) iniciou ontem estudo para ingressar na Justiça com ação civil pública pedindo a exoneração da diretoria da Anac por improbidade administrativa. O presidente da instituição, Cezar Britto, aguarda parecer da Comissão Especial de Defesa do Consumidor do Conselho Federal da OAB para tomar a medida.
Em fase de elaboração pelo presidente da comissão, Winston Neil Alencar, o parecer deverá estar pronto até segunda-feira. ''''A ação deve ser baseada no descumprimento da lei que instituiu a Anac e no desconhecimento técnico da área por seus diretores, conforme demonstra o caos aéreo'''', disse.
Autor da proposta, ele argumenta que a ação civil pública tem fundamento, principalmente, porque os diretores da Anac, incluindo seu presidente, não têm embasamento técnico para a função, conforme determina a lei que criou o órgão.
O Estado publicou reportagem ontem mostrando que apenas um dos cinco principais diretores da Anac é do setor aéreo. Os outros cargos foram preenchidos por indicação política ou apadrinhamento.
Segundo Alencar, outra agravante é que a Anac também não vem cumprindo suas funções. ''''Se for bem observado o depoimento de Zuanazzi à CPI do Apagão Aéreo, ele sustenta que a Anac apenas homologa o serviço de verificação da pista do aeroporto pela Infraero (Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária), mas não faz a liberação, que é decidida pela Infraero'''', observou. ''''Essa revelação é um absurdo, uma confissão de afronta à lei que criou a agência. O poder de fiscalizar é da Anac. Ela tem de fiscalizar para prevenir a ocorrência de fatos graves, como o acidente da TAM'''', afirmou.