O tira que invadiu a livraria

Conheça a história do herói Inspetor Tavares, que nunca achou uma editora que o quisesse, mas conseguiu cavar um lugarzinho na estante mais grã-fina da cidade

Jotabê Medeiros

É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um livro editado e distribuído pelo próprio autor entrar numa das modernas redes de livrarias de São Paulo. Mas às vezes, o zelador esquece a porteira aberta e um ou outro penetra invade.

Se o leitor passar esta semana pela portentosa Livraria da Vila da Alameda Lorena, nos Jardins (onde, no andar superior, um cafezinho custa R$ 2,50), vai encontrar na estante mais nobre, no térreo, um modesto livrinho policial em formato de bolso encarando tubarões da literatura mundial.

Trata-se de Inspetor Tavares - Cada Caso É um Caso, de Waldemar Neves (pseudônimo do escritor, ator, dramaturgo e cineasta Felipe Sant''''Angelo, de 26 anos). Custa R$ 16. Lembra aquele caso do estudante que expôs, durante 2 meses, um quadro de sua autoria durante a 25.ª Bienal de São Paulo, em 2002, ao lado de Brodsky, Cruz-Diez, Carmela Gross, Carlos Fajardo.

Chama atenção o fato de uma edição de autor conseguir tal feito - em parte pela própria natureza das livrarias atuais, que chegam a cobrar das editoras para que um livro ocupe espaço nobre em suas preciosas estantes e vitrines.

E em que pé anda a famosa edição do autor? Grandes escritores do País, como João Cabral de Melo Neto, começaram na literatura dessa forma - João Cabral bancou do próprio bolso a primeira edição de Pedra de Sono, no Recife, em 1942. O mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke e o libanês (radicado em Santa Catarina) Salim Miguel só tardiamente foram abraçados pelas editoras.

Um dos destaques da poesia mineira atual, Ricardo Aleixo só publica à própria custa. ''''Organizei minha vida cotidiana a partir de uma premissa não capitalista e não consumista'''', diz Aleixo. ''''Vivo com pouco, mas vivo bem'''', afirma.

''''A edição do autor é interessante por diferentes razões: você mesmo pode fazer, como um livro-objeto, a visualidade do seu livro; faz sem preocupação com as leis do mercado; também não precisa passar pelo crivo de um editor ou de padrinhos; e elimina o distribuidor'''', lembra o poeta Chacal, que, a partir dos anos 1970, editou na raça a maior parte de sua obra.

O Inspetor Tavares, abrigado alguns metros atrás da nova e imponente pilha de Harry Potter and The Deathly Hallows, não quer sair dali tão cedo. A menos que o despejem. ''''Fui às livrarias com a cara e a coragem'''', diz o escritor Felipe Sant''''Angelo, que editou 150 exemplares de seu livro de estréia com o personagem Inspetor Tavares.

''''Deixei o livro na livraria do Centro Cultural, na Mercearia São Pedro e na Livraria da Vila da Vila Madalena. Como foi parar nos Jardins eu não sei, mas fico feliz que alguém chegou até ele'''', diz o autor.