Em nome do pai, do filho e da reflexão

As Leis de Família, novo trabalho do argentino Daniel Burman, põe em xeque um homem em crise com a figura paterna

Luiz Carlos Merten

Daniel Burman completa neste mês (dia 29) 34 anos. Ele tinha 25 anos quando fez Esperando o Messias e 31 na época de O Abraço Partido. Desde então, teve filhos (no plural). Sua percepção do mundo, mais do que da arte, mudou. Daniel Burman esteve na semana passada em São Paulo. Veio para a exibição de As Leis de Família, na inauguração do 2º Festival de Cinema Latino-Americano, segunda-feira à noite, no Memorial da América Latina. Foi um visita-relâmpago. Ele chegou no domingo, passou a segunda-feira dando entrevistas, à noite cumpriu seu compromisso oficial e, na terça de manhã, regressou a Buenos Aires, onde o aguardavam reuniões inadiáveis, relativas ao próximo filme. As Leis de Família estréia hoje. É ótimo, mais um exemplar desse cinema argentino que faz sucesso de crítica e até de público - guardadas as proporções com os blockbusters de Hollywood - no País.

Em Abraço Partido, Burman contava a história de um jovem que tentava conseguir um passaporte europeu para fugir da eterna crise que assola a Argentina. O pai desaparecera e ele guardava uma mágoa da figura desse homem que o abandonara, ainda menino, para fazer a revolução na Europa. Em As Leis de Família, Burman conta a história de outro homem, um advogado, de novo em crise, mas agora porque teme estar repetindo a trajetória do pai, transformando-se nele (e não é um modelo que o atraia). A pergunta é inevitável - existem críticos, principalmente na França, que celebram a política dos autores, que dizem que um grande diretor faz sempre seu novo filme contra o anterior. É o caso de Daniel Burman em As Leis de Família? ''''Sob certos aspectos, sim, mas eu não diria propriamente ''''contra'''' o Abraço Partido. Acho que, na verdade, mais do que na contramão, estou indo no sentido de um aprofundamento da relação pai/filho. Eu próprio sou pai. É um assunto que me interessa porque ainda sou jovem e estou naquele ponto em que recém começo a me dar conta das responsabilidades que a paternidade acarreta. Ontem eu ainda era o filho, com suas exigências, que todos temos.''''

A relação não é só de família. No cinema, como na arte em geral, a ligação pai/filho pode ser, e quase sempre é, metafórica das relações de poder dentro da sociedade. Um pai autoritário, um pai brando, um pai corrupto encarnam comentários sobre a ordem social. ''''Achei que seria interessante encarar o drama de um homem ainda jovem, mas já maduro, que se defronta com esse dilema. Será que quero ser como meu pai? Para adquirir plena identidade, precisamos nos livrar da sombra dos outros. Não é fácil. Às vezes usamos nossos pais para mascarar nossas dúvidas e incertezas. Uma psicanálise elementar consiste em dizer que devemos perdoar nossos pais como forma de nos perdoarmos a nós mesmos. Só assim a gente segue adiante.''''

As leis de família, na própria vida de Daniel Burman, envolvem sempre a dupla questão de ser argentino e ser judeu. Como ele encara a questão? ''''Na vida? É fácil, nem penso nisso. Desde pequenino sou argentino e sou judeu. Foram coisas que vieram juntas.'''' (E ele ri.) Do ponto de vista da arte, então, já que em O Abraço Partido, no episódio de 18-J (sobre o ataque de neonazistas a uma sinagoga de Buenos Aires) e, agora, em As Leis de Família, a questão de ser judeu é sempre importante. Como é ser judeu num país como a Argentina, que teve a tradição de abrigar nazistas fugitivos, após a 2ª Guerra Mundial? ''''Faz parte da nossa tragédia latino-americana. Não foi só a Argentina que acolheu nazistas, mas neste caso é possível ver nesta acolhida a origem de um sentimento de direita que levou a tantos golpes militares e a uma ditadura tão brutal. É uma memória com a qual temos de conviver. E que temos de superar. Mas é bom discutir essas questões. Não haverá avanço se silenciarmos. Encarar os problemas é sempre necessário. É melhor que fugir deles.''''

Como era, para Burman, estar em São Paulo, participando de um evento que visa a eliminar as fronteiras que nos mantêm distanciados na América Latina? ''''Acho muito interessante. Temos uma diferença de língua e outra muito grande no futebol (NR - e ele ri, de novo). Mas, de resto, há muita coisa que nos aproxima neste mundo globalizado, no qual nossos países ainda são culturas periféricas.'''' O que ele acha desse carinho que o público brasileiro tem por um certo cinema argentino, mais humano, mais social? ''''É a prova de uma identificação, de que nossos problemas, apesar das diferenças, não são tão diferentes assim.'''' Ele nunca pensou em fazer filmes no Brasil, ou em co-produção brasileira? ''''Meus filmes têm feito em torno de 400 mil espectadores cada um, o que é um número muito bom para o cinema argentino. Têm me permitido montar lá as minhas produções, ou com a Espanha e o Chile, até o México. O idioma favorece esse tipo de aproximação. Mas acho que o cinema latino só terá a ganhar com a aproximação entre Brasil e Argentina.''''