Segunda-Feira, 27 de Agosto de 2007 | Versão Impressa
Lotado, pronto-socorro do HC interna pacientes até no corredor
Pessoas ocupam, às vezes por dias, cerca de 50 macas que atravancam o espaço, onde consultas também são feitas
Emilio Sant?Anna
Cerca de 650 pacientes são atendidos diariamente no pronto-socorro. Em dias de crise, o número cresce. Já chegou a 900. Crise, aliás, é a primeira impressão de quem passa pela porta, sem desconfiar que 70% daquelas pessoas não deveriam estar ali.
Ao lado das dezenas de macas que se acumulam no corredor, em um balcão improvisado como consultório, uma pessoa é examinada. Enquanto um paciente reclama que já não agüenta ficar ali, um rapaz chega se queixando de dores nas costas e fadiga crônica. O médico ouve os batimentos cardíacos, mede o pulso, pede exames e receita a medicação ali mesmo. Está pronto para o próximo caso. Apanha um prontuário e chama uma das pessoas que aguardam a vez do lado de fora.
PRIMEIRA OPÇÃO
Para muitos pacientes, o HC continua sendo a primeira opção em situações de pequena complexidade, o que foge do perfil do serviço. Parte da situação pode ser explicada pelo desconhecimento da população sobre como funciona a rede. Mas isso não é tudo. A falta de confiança no Sistema Único de Saúde (SUS) e em outros serviços de emergência faz com que o HC sofra as conseqüências do reconhecimento por seu bom atendimento.
Muita gente prefere enfrentar a lotação a ser atendida em outros lugares. "A rede precisa realmente ganhar mais credibilidade com a população", afirma Massayuki Yamamoto, diretor do Instituto Central do hospital. Ele admite que o pronto-socorro vive uma situação crônica, como a de alguns pacientes que esperam em macas nos corredores.
A dona de casa Ana Paula Freitas Pereira, de 26 anos, passou quatro dias internada em pleno corredor, numa maca, com um problema gastrointestinal. Nesse período, sua mãe, Wilma Freitas Pereira, de 50 anos, permaneceu em uma cadeira ao lado. O problema de Ana começou há quatro meses. Desde então, emagreceu 10 quilos e sofreu fortes cólicas provocadas por uma doença até então sem diagnóstico. "Passei por vários médicos em outros hospitais e só me deram soro." Saiu de Embu ( Grande São Paulo) para buscar atendimento no HC. "Não agüentava mais a dor, então resolvemos vir para cá."
Nos quatro dias em que permaneceu no corredor, diz não ter conseguido dormir direito. Mas não reclama. "O atendimento é bom, o problema é que é muito lotado", diz a mãe.
O pronto-socorro do HC recebe pacientes de lugares ainda mais distantes. Ambulâncias com o nome de várias cidades chegam a todo o complexo do HC todos os dias. Yamamoto explica que, quando isso ocorre repetidamente, uma comunicação formal é enviada à Secretaria de Saúde da cidade de origem, como alerta.
A aposentada Aparecida Baessi, de 70 anos, veio sem ambulância mesmo. Na terça-feira, após desmaiar e fraturar um osso da face, foi levada de carro pela filha, Adriane Baessi, de 37 anos, de Tatuí, no interior de São Paulo, para o HC. Antes, procuraram um pronto-socorro de Tatuí, onde um raio X nada acusou. "Não me mostraram nem o exame e disseram que poderíamos ir embora."
AMPLIAÇÃO
Para responder a essa situação de constante excesso de pacientes, o HC prepara mudanças. Casos de urgência de especialidades como otorrinolaringologia e oftalmologia já foram deslocados para o prédio dos ambulatórios, melhorando o fluxo no pronto-socorro que, até o final do ano, começa a ser ampliado.
Com investimento de R$ 1,5 milhão, a obra prevê a ampliação da capacidade de atendimento. Hoje, são 50 leitos - fora 67 reservados nos ambulatórios para pacientes que dão entrada no pronto-socorro. Até o final da reforma, em 2008, mais 34 devem ser incorporados. Os recursos já estão inclusos no orçamento deste ano. Em 2008, também deve começar outro processo de ampliação e reestruturação do pronto-socorro, com a construção de um novo centro para vítimas de traumas. A reforma custará mais R$ 1,4 milhão, pagos pela Fundação Faculdade de Medicina da USP.
O diretor do Instituto Central do hospital explica que essas mudanças darão mais agilidade ao atendimento, mas não podem ser encaradas como a única solução. Uma alternativa é transformar o pronto-socorro do HC em centro de atendimento referenciado, algo que a instituição vem implementando desde 2005 para consultas. Apenas pacientes encaminhados por outras instituições, com o perfil adequado de complexidade, deveriam ser tratados ali. Os demais, deveriam ser atendidos em outros locais, aliviando o HC para emergências.
Para o secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, o HC "é vitima de seu próprio sucesso". Segundo ele, o sistema público de saúde passa hoje por um novo desafio. O primeiro era conseguir atender toda a população, o que não acontecia antes da implantação do SUS. O segundo é dar respostas ao usuário com maior rapidez.
Barradas explica que a o governo estadual trabalha em duas frentes para resolver a situação do HC. Uma delas é a ampliação física, a outra é a conscientização das pessoas sobre como utilizar o sistema de saúde.