Sábado, 01 de Setembro de 2007 | Versão Impressa
Montadoras chamam de volta aposentados
Para garantir recordes de produção, empresas ampliam turnos de trabalho e reconvocam velhos funcionários
Cleide Silva
"Foi uma grande surpresa. Fiquei muito contente e aceitei, de imediato", conta Carvalho que, aos 54 anos, voltou a vestir o macacão de metalúrgico. Ele tinha 21 anos quando foi contratado pela Volks, recém-chegado do interior do Paraná. "Não tinha nenhuma experiência, foi meu primeiro emprego."
Em 1º de agosto, Carvalho voltou para a fábrica "por ser um especialista", conforme define sua chefia. Morador de Mauá (SP), ele tem oito filhos, dos quais três moram com ele e a esposa. Os outros são casados. "É muito melhor estar aqui do que pintando casas", diz.
A convocação de aposentados é uma das fórmulas que as montadoras e as autopeças adotaram para apressar o processo de ampliação da produção de carros. São profissionais com experiência, que podem começar a trabalhar de imediato, sem passar por treinamento. Faz parte ainda desse esforço a criação de turnos especiais para trabalho só no fim de semana e a redução do horário das refeições dos funcionários.
A Federal Mogul, fabricante de peças para motos e carros em Diadema (SP), criou um turno especial de trabalho aos sábados e domingos. A equipe é formada por 28 funcionários, a maioria aposentados, com idades entre 40 e 50 anos. Eles se revezam em equipes que iniciam o trabalho no sábado pela manhã e terminam no domingo à noite. De segunda a sexta, a empresa opera em três turnos.
"A proposta do turno alternativo foi feita pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e aceita pela empresa, após vários meses de negociação", diz o diretor da entidade, Hélio Honorato Moreira. A Mogul, que emprega ao todo cerca de 550 trabalhadores, não deu declarações.
Em julho, a Volkswagen contratou 725 empregados para o início do segundo turno de trabalho na linha de produção do Gol e da Saveiro e no reforço de outras equipes na fábrica Anchieta, em São Bernardo.
Desse grupo, 375 são aposentados como João Carvalho, que já trabalharam na própria Volks ou em outras empresas automobilísticas. Os salários variam de R$ 1.031 a R$ 1.700.
Inicialmente, essas contratações são por prazo de dez meses, com possibilidade de prorrogação. Com a medida, a montadora ampliou a produção diária de 890 para 1.015 veículos.
A General Motors de São Caetano do Sul negocia com os trabalhadores a criação de um terceiro turno de trabalho, provavelmente para 2008, e novas contratações. "A empresa também propõe a redução do horário de refeições, hoje de uma hora", informa Francisco Nunes, vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano. "Se houver contratação, podemos discutir o assunto, mas, sem isso, não vamos aceitar."
A GM opera no limite da capacidade produtiva nessa fábrica, assim como na de Gravataí (RS), onde também estuda um novo turno para o próximo ano.
Desde janeiro, as montadoras contrataram 8,2 mil funcionários e empregam atualmente 114,5 mil pessoas, o maior quadro de pessoal em dez anos. As autopeças contrataram 5,9 mil trabalhadores, elevando a mão-de-obra para 204,9 mil pessoas até julho. Só a Fiat contratou este ano 3.053 funcionários e passou a operar em três turnos.
NOVO RECORDE
Até quinta-feira, um dia antes de o mês terminar, foram licenciados 220,7 mil veículos novos, incluindo caminhões e ônibus, número que já supera as 217,4 mil unidades de julho e marca mais um recorde mensal da indústria. No ano, as vendas acumulam mais de 1,52 milhão de unidades, um crescimento de 27,2% em relação a 2006.
Somente em automóveis e comerciais leves foram vendidos, entre 1º e 30 de agosto, 210,1 mil unidades. Ainda falta ser contabilizado o resultado de ontem. Em todo o mês de julho, que teve um dia útil a menos, foram vendidos 206,5 mil veículos. Em julho do ano passado foram vendidos 170,2 mil carros e comerciais leves. No ano, as vendas acumuladas nesse segmento somam 1,445 milhão de unidades, 26% mais que em igual período de 2006.
Para José Rinaldo Caporal, da consultoria Megadealer, especializada no varejo de veículos, a demanda reprimida está sendo atendida pelo aumento da oferta de crédito e maior confiança na economia. "Quem tinha uma bicicleta ou um jegue passou para a moto, quem tinha moto passou para carro usado e quem tinha um usado foi para o carro zero", diz. "Só não sei até quando isso vai continuar", afirma o consultor, para quem o mercado continuará crescendo, mas em menor ritmo.
Até o dia 30, a Fiat liderava o mercado de automóveis e comerciais, com 26% de participação. A Volkswagen, que interrompeu o trabalho por alguns dias em Taubaté (PR), para preparar a fábrica para a produção de um novo carro, ficou com 22,2% das vendas, muito perto da GM, com 22%. A Renault, que se mantinha em sétimo lugar no ranking, voltou a ocupar a quinta posição, com 3,3% de participação, resultado das vendas do novo carro, o Logan.