Domingo, 16 de Setembro de 2007 | Versão Impressa
Um roteiro para unir árabes, judeus e cristãos
Caminho de Abraão, patriarca comum, percorrerá 1,2 mil km no Oriente Médio
Jamil Chade, GENEBRA
O caminho vai percorrer os lugares por onde passou, há 4 mil anos, Abraão, personagem comum às três crenças e considerado o pai das religiões monoteístas. "Não se trata nem de um projeto religioso, nem político, mas da criação de um pólo de turismo. Precisamos de uma visão nova para o Oriente Médio. A região tem dois caminhos: o terrorismo ou o turismo", afirma o idealizador do projeto, William Ury, professor de Harvard, que estará no Brasil nos próximos dias para arrecadar recursos. Segundo dados da ONU, a economia de vários locais em conflito, como a Palestina, está à beira do colapso e o desemprego chega a 40%.
O acadêmico fez estudos de viabilidade econômica e infra-estrutura e iniciou consultas com políticos e religiosos do Oriente Médio. O projeto não enfrenta oposição dos governos da Síria, Líbano e Israel. Também conta com o aval da ONU, da Liga dos Países Árabes e de personalidades como o ex-presidente americano Jimmy Carter e o Dalai Lama. Foi escolhido como um dos cinco programas no mundo que a ONU decidiu apoiar para promover o diálogo entre civilizações.
O grupo criado em Harvard elaborou um caminho de 1,2 mil quilômetros simbolizando o trajeto feito por Abraão. As ruínas de Harran, no sul da Turquia, servem de ponto de partida. Lá o profeta teria recebido o chamado de Deus. O caminho segue pela Síria, Jordânia, Israel, Palestina e Líbano, terminando na cidade de Hebron, onde está o túmulo de Abraão. Cidades como Aleppo, Damasco, Belém e Jerusalém fazem parte do roteiro.
No futuro, devem ser incluídas rotas pelo Iraque, Egito e Arábia Saudita para os muçulmanos, ainda que os obstáculos de segurança sejam significativos. O idealizador admite que a questão pode ser um obstáculo para a criação da rota. Mas aponta que, na maior parte do caminho, esse não seria um problema.
ANGARIANDO ADEPTOS
Em sua visita ao País, o professor Ury tentará convencer empresários das diferentes comunidades religiosas a financiar o projeto, que já conta com cerca de R$ 2 milhões em compromissos de empresas brasileiras. O custo total é calculado em US$ 50 milhões.
Segundo José Fernando Latorre, coordenador executivo no Brasil, alguns empresários já confirmaram participação, entre eles o grupo Suzano e a Construtora Shahim. Nesta semana, um evento reunirá banqueiros e empresários para apresentar a idéia. No exterior, é negociada a participação do mexicano de origem libanesa Carlos Slim, maior fortuna do mundo. Por enquanto, a idéia recebe recursos da própria Harvard, do Fundo Rockefeller e de príncipes sauditas.
"O processo de paz precisa de algo novo e inesperado e esse fator pode ser o Brasil. Ao contrário dos Estados Unidos e da Europa, o País é respeitado no Oriente Médio. Além disso, é um exemplo de como as comunidades podem conviver", diz Ury. Em novembro de 2006, a Universidade Harvard reuniu especialistas, entre eles um rabino do Rio e um professor da Universidade de São Paulo (USP) de origem árabe para percorrer parte do caminho.
O primeiro trajeto será inaugurado neste ano, no território da Turquia. Em 2008, outros 120 quilômetros na Jordânia serão abertos, trabalho que está envolvendo o mapeamento com ferramentas como o Google Earth. Até 2010, 600 quilômetros devem estar identificados, com infra-estrutura estabelecida e aberta a turistas. Para isso, um percurso terá de ser inaugurado a cada seis meses, guias terão de ser treinados e uma campanha com agências de viagens feita em várias partes do mundo.
"O turismo é fonte de renda, de crescimento econômico, além de criar condições para o diálogo e a preservação de monumentos", afirma Ury. Em sua avaliação, países que até pouco tempo eram considerados marginais na economia européia, como a Espanha, hoje acumulam lucros com o turismo. "O país agora supera a França em número de turistas por ano", completa, sugerindo que o mesmo poderia ocorrer com o Oriente Médio.