Sexta-Feira, 05 de Outubro de 2007 | Versão Impressa
Enfim nas telas, um fenômeno do cinema nacional
Estréia hoje um multiplicador de polêmicas, um campeão de pirataria, um marco de apelo popular...
Luiz Carlos Merten
Calcula-se, já que se trata de uma economia informal, que cerca de 2,5 milhões de espectadores já tenham visto o filme. No Rio, ele virou um fenômeno especialmente um fenômeno entre motoristas de táxi. Todos já o viram. Se você entra em um táxi e puxa o assuinto, o motorista imediatamente diz que aquela é a realidade do Rio. Críticos e jornalistas é que estão divididos. Para uma parcela muito grande da crítica, Tropa de Elite é de direita, se não fascista. Para um diretor racional como José Padilha, a discussão seria estimulante (e é), mas ela também carrega um componente que lhe desagrada e até decepciona - ''''Mais de 20 anos depois de Cacá Diegues, estou sendo vítima de novas patrulhas ideológicas'''', desabafa.
Quando fez Ônibus 174, expondo o ponto de vista do ex-menino de rua que seqüestrou um ônibus e o drama foi seguido ao vivo, em transmissão direta pela TV, para todo o País, Padilha foi acusado de justificar a bandidagem. Chamaram-no de ''''radical de esquerda''''. Ele se explica - ''''Estava tentando entender o comportamento do Sandro e permitir que as pessoas entendessem, também. Não estava defendendo o ponto de vista dele.'''' Agora, saindo do documentário para ingressar na ficção, ele está sendo acusado não apenas de adotar o ponto de vista do policial, justificando a tortura e a violência, como também de transformar o Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, num herói.
Padilha sabe que, ao colocar seu filme na rua, ele deixa de lhe pertencer, para pertencer ao público, que faz suas leituras do material filmado e montado do jeito que quiser (ou puder). No caso de Nascimento, o roteirista Bráulio Mantovani e ele criaram um personagem em crise. ''''Nascimento sofre de síndrome de pânico. Trabalhamos muito na construção do personagem. O pânico é a sua forma de exteriorizar a crise. Ele dedicou sua vida à corporação (ao Bope, Batalhão de Operações Especiais, a tropa de elite do título) e agora descobre que não tem a mínima paz interior para manter sua vida familiar. Mas, para sair do Bope, ele precisa fazer seu sucessor. Esse sucessor é um cara que tenta conciliar éticas inconciliáveis. Ele quer ser policial do Bope, mas quer pertencer ao grupo de estudantes da faculdade, que vêem os policiais como agentes da repressão e muitos até financiam o tráfico, enquanto consumidores. O resultado só pode ser uma escalada da violência.''''
''''Não emito julgamentos morais'''', diz Padilha, ''''mas fiz um filme sobre escolhas. Existem quase 40 mil policiais militares no Rio e 3 milhões de consumidores de drogas. Os consumidores não têm escolha, mas os policiais têm. Eles ganham pouco, estão mal aparelhados e arriscam a vida por nada. As escolhas deles são: corromper-se, omitir-se ou ir para a guerra. Qualquer uma das três é uma m...''''
É esta m... que Padilha está colocando na tela, daí a polêmica provocada por seu filme. Qual é a solução para esse imenso nó górdio? Ele diz que não é função da arte apresentar soluções para os problemas que provoca, mas, como cidadão, tem opinião formada. André Ramiro, ator do filme - faz Matias -, comparou, na coletiva realizada na tenda do Festival do Rio, na terça-feira, a pirataria à droga, como atividade ilegal. ''''A solução seria a descriminalização das drogas'''', ele diz, mesmo sabendo que não seja coisa fácil e que não se resolve com canetadas. ''''Você sabia que a cocaína já foi vendida em farmácia no Brasil?'''', ele provoca.
O tema e os personagens são explosivos e o método de filmar de Padilha, tornando o filme ''''excitante'''', alimenta os críticos que acusam o diretor de manipulação, o que ajudaria a construir a aura ''''fascista'''' do filme. O mínimo que se diz de Padilha é que ele glamouriza a violência. O diretor diz que não sabe o que é isso. ''''Violência é violência, ponto. Não é uma coisa boa, ponto.'''' Padilha faz uma reflexão interessante sobre o próprio trabalho. ''''Quando iniciei este filme, era um diretor de documentários, acostumado a trabalhar com uma equipe pequena, de quatro pessoas. Não sabia nem me comportar num set imenso como este, que tinha em torno de 150 pessoas. Como me conduzir? Assumi algumas regras. Queria um diretor de fotografia jovem, porque a pegada do filme deveria ser esta. Ágil, vibrante. Lula Carvalho (filho de Walter Carvalho) é genial, alguém que não seja eu, para não parecer suspeito, precisa dizer isso. Disse ao Lula que queria filmar como se fosse um documentário. Criei um pepino para ele, mas o Lula encarou.''''
Seu método consistiu em trabalhar sem iluminação dirigida nem marcação dos atores. ''''No cinemas, em geral, o diretor arma a luz para um tipo de plano, mas se tem de mudar o ângulo não basta mudar a câmera; é preciso mudar a luz, também. Eu não queria fazer assim. Filmei em plano-seqüência e não dei marcação para os atores, mas dizia ao Lula que ele tinha de seguir os movimentos do Wagner Moura. Isso podia ser difícil para o operador, mas não era impossível. Existem cenas em que Lula filma de câmera na mão e sobe na grua sem corte. Os atores também improvisavam muito suas falas. A conseqüência é que, na montagem, não havia dois planos iguais para selecionar o melhor.'''' Isso é o contrário do estilo hollywoodiano de filmar, mas Padilha está sendo acusado de fazer um filme de Hollywood. ''''Não sou contra o cinema americano só por ser americano. Existem grandes diretores e filmes que admiro muito. Quando penso que Taxi Driver e Apocalypse Now também foram chamados de fascistas, acho até que estou em boa companhia.''''