Quinta-Feira, 18 de Outubro de 2007 | Versão Impressa

Acusado de achaque a padre negociava carros de luxo

Suspeito que teria ameaçado Júlio Lancelotti por 3 anos também arrendava pensão com 27 quartos

Bruno Paes Manso

Foragido da polícia e acusado de pertencer a um grupo que extorquiu R$ 56 mil do padre Júlio Lancellotti em três anos, Anderson Marcos Batista, de 25 anos, negociava carros e era arrendatário de uma pensão de 27 quartos no Belém, na zona leste de São Paulo. A namorada dele, Conceição Etério, de 44 anos, também acusada de participar da quadrilha, tinha uma barraca de produtos eletrônicos havia dois anos na Rua 25 de Março, no centro de São Paulo.

Ambos tiveram a prisão preventiva decretada pela Justiça ontem, assim como Everson dos Santos Guimarães e Evandro dos Santos Guimarães, que também participariam do esquema de achaque. O padre Júlio informou que a 5ª Seccional se colocou à disposição dele e ofereceu proteção policial. O religioso estudava a proposta.

Contra Batista existe ainda um inquérito por suspeitas de enriquecimento ilícito. Em meados do ano passado, Conceição havia acusado o namorado de agredi-la. Pouco depois, retirou a queixa. Um inquérito foi aberto contra ela por denúncia caluniosa. "Foi nessa época que começamos a receber denúncias anônimas de que o casal vinha adquirindo bens que aparentemente não condiziam com o ganho deles", explicou o delegado André Luiz Pimentel, chefe do Setor de Investigações Leste. Em depoimento no dia 21 de janeiro, Batista disse à polícia que arrendava uma pensão de 27 quartos por 2 mil reais e cada hóspede pagava entre R$ 150 e R$ 300 mensais por quarto.

Batista também negociava automóveis. Em agosto de 2004, comprou um Astra quatro portas. Em troca, deu um Nissan de sua propriedade e ainda recebeu R$ 20 mil. Segundo seu depoimento, em setembro de 2006, trocou o Astra por um Audi e deu R$ 20 mil na troca. Ele afirmou que o Astra não tinha seguro e foi roubado em novembro do ano passado. Logo depois, comprou um Meriva prata 2003 por R$ 35 mil. Disse que pagou R$ 10 mil, mas desfez o negócio uma semana depois. Restou somente a Pajero prata 2004, que Batista comprou por R$ 65 mil com um financiamento em nome de sua namorada. Um total de 20 das 30 prestações de R$ 2.200 foram pagas pelo padre Júlio Lancellotti.

Anderson também havia comprado um imóvel em 2004 por R$ 35 mil na zona leste e gastou R$ 15 mil em reformas. Também disse que no emprego na entidade Casa Pastoral Bom Parto, que obteve com ajuda do padre, recebia R$ 200 por mês.

O advogado de Batista, Nelson Bernardo da Costa, afirmou não saber a localização de seu cliente, mas garantiu que ele comparecerá em breve para apresentar sua versão. Costa não sabia das negociações de seu cliente com automóveis.

APOIO

O arcebispo d. Odilo Scherer, nomeado ontem cardeal, disse que o padre Júlio continuará tendo seu apoio para o trabalho pastoral. "É fácil levantar acusação de pedofilia porque está na moda fazer isso para obter indenizações, mas não existe nada contra ele", afirmou d. Odilo. Preocupado com a segurança do religioso, o arcebispo disse esperar que a polícia "faça o seu trabalho para esclarecer o que ocorreu".

Ontem à tarde, durante missa em homenagem a d. Odilo, padre Julio esteve no altar com cerca de 30 bispos auxiliares e outros religiosos. Seu nome não foi mencionado na missa. Após o evento, o padre relatou ter recebido telefonemas de apoio, entre eles o do chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho. E afirmou que o episódio lhe ensinou lições. "Não há amor sem dor e as pessoas não são como nós queremos." COLABOROU JOSÉ MARIA MAYRINK