Quinta-Feira, 25 de Outubro de 2007 | Versão Impressa

Cecil Taylor, a revolução permanente

Dezoito anos após última visita, pianista volta como a maior atração da mostra

No final dos anos 50, um pianista de idéias libertárias, ousado improvisador e personagem excêntrica da música botou o jazz de ponta cabeça. Era Cecil Taylor, que hoje tem 78 anos e continua professando a fé numa revolução na música que, mais do que artística, seja espiritual.

Sua vinda ao Brasil, há 18 anos, foi marcante. Taylor é um daqueles malucos necessários, um anarquista incorrigível, repisando sempre alguns princípios que são facilmente esquecidos. ''''Eu sou apenas um operário. A única diferença entre eu e os operários de fábrica é que aprendi a aceitar as responsabilidades de amar o trabalho que faço'''', disse Taylor ao Caderno 2 na época. ''''O problema é que os artistas são facilmente engolidos pela instituição. Para criar, é preciso aceitar a responsabilidade de estar fazendo algo visto como inútil neste mundo comercial e míope.''''

Ele se apresentou no dia 23 de agosto de 1989 no palco do Hotel Nacional, no Rio de Janeiro. Chegou dançando como um curandeiro indígena e, antes de iniciar seus serviços ao piano, acompanhado de um quarteto, ficou uns cinco minutos fazendo uma espécie de aquecimento xamânico. ''''No geral, acho que os cientistas são vistos como deuses. Dinheiro é visto como um deus. Mas os próprios cientistas estão reavaliando suas conclusões, unindo especialidades do todo que eles ajudaram a distanciar'''', considerou o pianista.

É essa figuraça, anarquista por vocação, o destaque maior da jornada jazzística do TIM Festival 2007. No começo dos anos 70, ele passou por apuros financeiros, e foi salvo por uma bolsa da Fundação Guggenheim. Chegou a tocar na Casa Branca, na gestão Jimmy Carter, e fez uma bela parceria com Max Roach. Sua coerência artística já percorre mais de meio século - basta ouvir o relançado disco Conquistador (1966), que tem apenas duas faixas, para saber que ele é de outra dimensão.

O outro destaque é o filho do barbeiro, Joe Lovano, saxofonista de uma outra dimensão, mais melódico, mais ''''careta'''', por assim dizer, mas igualmente impressionante como criador de melodias - algumas delas contidas na série de discos com o veterano pianista Hank Jones, como Kids. Atenção também aos novatos, que vêm principalmente da Europa: o pianista-prodígio Eldar, agora com 20 anos; a cantora sueca Lisa Ekdahl (que substituiu na última hora a italiana Roberta Gambarini); e o saxofonista Stefano di Battista, que tocou com o grande Michel Petrucciani.