Sexta-Feira, 26 de Outubro de 2007 | Versão Impressa

Foragido pagou R$ 22 mil para não ficar preso em Osasco

Policiais civis são acusados de não confrontar as impressões digitais do criminoso

José Dacauaziliquá e Josmar Jozino

A Polícia Civil de Osasco, na Grande São Paulo - mesma jurisdição onde estavam lotados o delegado Pedro Luiz Pórrio e oito investigadores presos sob a acusação de tortura, roubo e extorsão - está envolvida em outro escândalo. Dessa vez, policiais civis são acusados de não confrontar as impressões digitais de um foragido da Justiça, condenado a 10 anos por assaltos e detido por policiais militares por porte de arma. O criminoso apresentou identidade falsa no 5º Distrito da cidade e teria pago R$ 22 mil para não ficar preso.

O foragido foi preso por policiais militares da Força Tática à 0h05 de 21 de agosto de 2006, na Rua Coral, 68, bairro Rochdale. Ele portava um revólver calibre 38. Levado ao 5º DP, o criminoso apresentou RG falso, de número 2.437.223/ES, em nome de Nelson Gaspar Ferreira, nascido em 12 de agosto de 1980 e filho de José Gaspar Ferreira e Marli Rodrigues Ferreira.

O delegado de plantão, J.C. Gonzalez, pegou a identidade apresentada pelo preso e inseriu os dados no boletim de ocorrência 7608/2006 e o autuou em flagrante por porte ilegal de arma. O plantonista também assinou um documento explicando por que o preso não teve as impressões digitais colhidas na ocasião. A ficha policial diz: "Deixou de ser identificado datiloscopicamente por ter exibido cédula de identidade cujos dados transcritos conferem com o original".

O criminoso foi levado ao CDP 1 de Osasco, onde ficou só quatro dias. A juíza Danielle Martins Cardoso, da 3ª Vara Criminal de Osasco, confiando no trabalho da Polícia Civil, expediu alvará de soltura em favor de Nelson Gaspar Ferreira, já que não havia antecedentes criminais em nome dele.

A juíza, no entanto, mencionou no alvará de soltura, expedido em 24 de agosto de 2006, que Nelson Gaspar Ferreira deveria se manter no mesmo endereço declarado e comparecer em todas as audiências designadas. Caso não cumprisse a ordem judicial, poderia perder o direito à liberdade.

Em 24 de setembro de 2006, os mesmos PMs que prenderam o foragido tiveram uma surpresa: flagraram o acusado às 19h, novamente na Rua Coral. Segundo os PMs, o criminoso tentou suborná-los para não ser preso outra vez.

Os PMs usaram um telefone celular para gravar a tentativa de suborno. O foragido contou aos policiais militares que seu nome verdadeiro é Nelson Conrado Rosa e que teria pago R$ 22 mil para os policiais civis do 5º DP, no dia da primeira prisão, sendo R$ 15 mil em dinheiro e um veículo Gol no valor de R$ 7 mil, para não ser legitimado, ou seja, não ter confrontada as impressões digitais, pois assim seria identificado como procurado pela Justiça.

Os policiais da Força Tática levaram o assaltante novamente para o 5º DP. Dessa vez, ele apresentou o RG verdadeiro, de número 31.947.532/SP. Rosa, também conhecido como Alemão, nasceu em 21 de agosto de 1980 e é filho de José Carlos Rosa e Marli Rosa.

O delegado de plantão, Eliandro Renato dos Santos, registrou o boletim de ocorrência 8700/2006 com a seguinte natureza: "Captura de procurado". Rosa está preso numa penitenciária de segurança máxima.

Em depoimento à Corregedoria da Polícia Civil, em Osasco, Rosa negou que tivesse subornado os policiais civis do 5º DP. Afirmou ainda que a gravação realizada pelos PMs da Força Tática foi feita sob coação.

A Secretaria da Segurança Pública informou que a Corregedoria de Osasco investiga o caso. Os policiais civis são investigados por concussão - crime de extorsão praticado por funcionário público.

O corregedor de Osasco, Gilberto Barbosa da Silva, quer saber como um foragido da Justiça foi levado à delegacia e não teve sua identidade confirmada. Essa é a segunda denúncia de extorsão envolvendo policiais civis de Osasco. Na última terça-feira, a Justiça de Campinas decretou a prisão preventiva de Pórrio e dos oito investigadores.

NÚMEROS

R$ 15 mil

foi quanto o criminoso pagou em dinheiro

R$ 7 mil
foi o valor de um carro que, somado aos R$ 15 mil
em dinheiro, pagou a ?liberdade do foragido?

10 anos
era a pena de prisão que o foragido deveria cumprir