Quarta-Feira, 31 de Outubro de 2007 | Versão Impressa
Padre Júlio denunciou à polícia em 2006 outra extorsão, de traficante
Ele disse que recebeu telefonemas até de cela de CDP; acusado alegou que ambos tinham relação homossexual
Marcelo Godoy e Bruno Tavares
O traficante foi detido duas vezes, a última delas em 19 de abril deste ano. Em depoimento à Justiça em 3 de setembro, disse que pedia "sempre" dinheiro ao sacerdote. Mas garantiu que Lancellotti o ajudava porque os dois tinham um "relacionamento homossexual".
O padre disse aos policiais que Lima começou a exigir dinheiro depois de ter sido preso pela Polícia Militar, em 16 de maio de 2006, sob a acusação de tráfico. O sacerdote afirmou que, solto no fim do ano, Lima retomou o achaque. Depois da segunda queixa o suspeito voltou a ser preso com drogas, dessa vez pela Polícia Civil.
As alegações, tanto do padre quanto do acusado, são as mesmas do caso de Batista, ex-interno da Febem. O ex-secretário-adjunto da Segurança, Marcelo Martins Oliveira, disse que desde 2004 Lancellotti procurava autoridades para denunciar achaques. Sempre fazia isso de modo discreto, recusando-se a prestar queixa formal. Só mudou de estratégia há dois meses, quando acusou Batista de tê-lo extorquido .
No caso de Lima, as autoridades souberam dos problemas enfrentados por Lancellotti no fim de 2006. Ele procurou o então comandante-geral da Polícia Militar, coronel Elizeu Eclair, que o encaminhou à Delegacia Geral. O padre contou à polícia que tinha uma relação com o acusado, que o conhecia, mas não sabia que ele era traficante. Afirmou que Lima telefonava para cobrar dinheiro de uma cela do Centro de Detenção Provisória (CDP) 2 de Pinheiros, zona oeste. O padre indicou o número da cela e do celular do acusado. Comentou até que achava um absurdo haver telefones dentro de uma prisão.
A cúpula da polícia agiu com discrição. O delegado-geral Marco Antônio Desgualdo ligou para o secretário da Administração Penitenciária, Antonio Ferreira Pinto, para tratar do assunto. No dia seguinte, 10 de outubro, uma blitz feita por agentes prisionais localizou o celular na cela de Lima, que foi transferido para o CDP 2 de Hortolândia, no interior. Em 30 de novembro, Lima recebeu o direito de responder ao processo por tráfico em liberdade.
Em fevereiro, o padre voltou a bater na porta da polícia. Procurou a 1ª Delegacia Seccional, no centro. Contou que estava sendo achacado por Lima, mas não quis fazer denúncia formal. O caso foi passado ao Setor de Investigações Gerais (SIG) da seccional. Em abril, o SIG prendeu Lima em flagrante com 49 pedras de crack, na esquina da Rua General Osório com Avenida Rio Branco, no centro. A 5ª Seccional (Leste), que apura o caso de Batista, vai agora ouvir o depoimento de Lima .
COLABOROU BRUNO PAES MANSO