Quarta-Feira, 28 de Novembro de 2007 | Versão Impressa

''''Escrevo para conseguir sobreviver à melancolia''''

A roteirista e romancista Fernanda Young fala de sua rotina em casa, do novo trabalho na TV, O Sistema, e acusa a imprensa de desprezar sua obra literária

Leila Reis, leilareis@terra.com.br

Fernanda Young tem trabalhado muito para a TV em parceria com o publicitário e marido Alexandre Machado. Nesta entrevista, a roteirista da série O Sistema e do quadro Super Sincero (com Luiz Fernando Guimarães, no Fantástico) e entrevistadora do Irritando Fernanda Young, na GNT, reclama o tratamento que tem recebido da imprensa como escritora: ''''Acabei de lançar meu oitavo romance e não tive uma resenha sequer.'''' Aos 37 anos de idade e duas filhas (7 anos), Fernanda diz que conseguiu reverter a antipatia que cativou quando colocou seu lado ''''anarquista e desagradável'''' para fora no Saia Justa e que, mesmo ganhando mais dinheiro na TV, é na literatura que ela se garante: ''''É o que eu preciso fazer para sobreviver à melancolia.''''

Por que você acha que O Sistema vai mal de ibope?

A direção da Globo está satisfeita com audiência (média de 12 pontos no Ibope), porque O Sistema é uma experimentação, uma história nonsense, com novos atores, formato diferente. Se todas as outras emissoras copiam o que a Globo faz, então é uma decisão sóbria experimentar na linguagem, em outro tipo de humor.

O telespectador está preparado para um humor mais sofisticado?

Acho que o grande público é capaz de reconhecer as barbáries brasileiras em O Sistema, porque a série é um deboche que alinhava vários clichês presentes no inconsciente coletivo. É uma grosseria achar que o telespectador não está preparado para programas que saiam fora do arroz com feijão.

De tudo que você escreveu para a TV, qual programa você considera o melhor?

Neste momento é O Sistema. Por causa da experiência com novos atores (escolhidos por meio de teste), idas e voltas no tempo, letreiros e efeitos especiais.

Como autora, você infere na escalação do elenco?

Quando a gente pensou na série, Selton Mello (com quem fizemos Os Aspones) foi a nossa primeira escolha. O próprio Selton estimulou a opção pelos novos atores. Maria Alice Vergueiro foi um desejo alternativo do grupo e trouxe um público jovem, que baixa a série no YouTube. Ney Latorraca é tão forte na minha história de telespectadora, que achava que ele estava acima das minhas possibilidades, até que ele pediu para trabalhar comigo quando fizemos Irritando Fernanda Young (GNT). Formamos um bom time.

Você é romancista, roteirista e apresentadora de programa. Em qual função você é mais você?

Como romancista, porque é o que eu faço melhor. É o que eu preciso fazer para sobreviver à melancolia.

Como sobreviver à melancolia?

Não escrevo por vaidade, é uma necessidade que tenho desde os 17 anos. Escrever romances é o que faço melhor, assim como tentar ser uma boa mãe. Já sofri muita crítica e preconceito, porque devo ter um perfil que não resvala para o intelectual e isso incomoda a imprensa especializada. Tanto que acabo de lançar meu oitavo romance, É Tudo Que Você não Soube, e não publicaram uma resenha sequer. Acho ausência de auto-estima descartar assim um autor nacional.

Quando deixou o Saia Justa, você disse que queria que seu cabelo crescesse sem ninguém dar palpite. Você já resolveu o dilema de ser famosa ou não?

Não tenho necessidade de estar no ar. Faço o Irritando Fernanda Young porque é um programa que eu criei. Você não me vê em revistas de celebridades, minha vida social se restringe a um restaurante japonês ou uma pizza com cerveja até as 7 da noite. Durmo às 10 toda noite para dar conta do trabalho. Conquisto a auto-estima por meio do trabalho e das minhas filhas.

Você conseguiu inovar o talk show pegando o tema da irritação e se colocando na conversa. A que você credita esse prestígio?

Quando fazia Saia Justa não tinha noção do número de pessoas que estavam me vendo. Coloquei em cena meu lado anarquista, desagradável, burro e paguei um preço alto por isso. Acho que depois consegui reverter, porque as pessoas gostam de ir ao meu programa. Elas sabem que não serão expostas ao ridículo nem serão pressionadas a falar o que não querem. E me exponho mesmo, não me importo de fazer escada para os entrevistados. Fábio Jr. ficou impressionadíssimo quando eu disse que era fã a ponto de ir aos shows dele.

Por que Alexandre Machado nunca aparece? Qual é o acordo da dupla?

Alexandre não suporta sair de casa. Ele tem uma auto-imagem que é mais bonita do que a realidade, por isso não quer se ver em fotos e revistas. Ele fica em conflito porque se imagina como o Sean Connery.

Você me disse há três anos que queria transformar o seu livro Aritmética em minissérie. O que você fez para isso?

Eu sou muito respeitada na Globo, mas não sou política. Se depender de mim e do Alexandre freqüentar os corredores da Globo para chegar lá, nada vai rolar. Mandei o texto para o Jayme Monjardim e não obtive resposta. Mas agora existe uma hipótese de fazer a minissérie, porque mostramos o texto para o José Lavigne e ele topou conversar a respeito.

Qual das suas atividades te dá mais dinheiro? E qual a que dá mais aporrinhação?

A de roteirista de TV é a mais bem remunerada e na qual a família se concentra. Eu não conseguiria viver de literatura sendo singelamente paga porque não sou uma pessoa singela. Sou viciada em marcas, adoro Louis Vuitton, apesar da minha aparência, sou muito suburbana.