Quinta-Feira, 06 de Dezembro de 2007 | Versão Impressa

''''Caveirão do ar'''' é a nova arma da polícia do Rio para combater tráfico

Helicóptero blindado foi comprado nos EUA por US$ 4,5 milhões e será usado em operações em favelas

Alexandre Rodrigues

A polícia do Rio deverá receber até fevereiro uma máquina de guerra para combater a criminalidade nas favelas. Depois do carnaval, deve chegar à cidade o primeiro helicóptero blindado comprado pela Secretaria de Segurança. Trata-se de uma nova geração do modelo UH-1H, fabricado pela empresa americana Bell, que foi utilizado pelo Exército americano na Guerra do Vietnã. O aparelho, rebatizado de Huey II, custou US$ 4,5 milhões - cerca de R$ 8 milhões - e está sendo adaptado para as necessidades da polícia do Rio pela fabricante no estado americano do Alabama. O aparelho será utilizado pela Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), considerada a unidade de elite da Polícia Civil. A novidade já é chamada pela tropa de "caveirão do ar".

A compra do helicóptero foi decidida pelo secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, ainda antes da morte do policial Eduardo Henrique Mattos, atirador de elite da Core, numa operação no Morro do Adeus, zona norte, no mês passado. Ele foi atingido na cabeça quando estava em um dos helicópteros Esquilo utilizados pela polícia nas operações. O modelo não é mais considerado ideal para o combate aos traficantes nas favelas, que têm armamento cada vez mais pesado e até munição antiaérea. O secretário pediu ajuda ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, para a liberação da compra pelas Forças Armadas, que também utilizam esse tipo de aparelho.

"O que muda é que vamos voltar ao que havia 15 anos atrás: o helicóptero resolvia. Hoje em dia, ajuda, mas é passível de ser atingido e não pode ficar parado. O novo helicóptero poderá parar onde for necessário para a cobertura dos policiais em terra", explica o delegado Rodrigo Oliveira, titular da Core. Ele foi aos Estados Unidos em junho para acertar a compra do aparelho, que é utilizado pelas polícias de Nova York e Nacional da Colômbia. Pilotos da polícia fluminense receberão treinamento especial nos Estados Unidos para operá-lo.

O policial que morreu no helicóptero havia participado de operação na Favela da Coréia, em outubro, quando dois traficantes foram perseguidos e mortos por atiradores no aparelho, provocando críticas de defensores de direitos humanos. "É extermínio", protestou a presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, Cecília Coimbra. Do outro lado, casos cada vez mais recorrentes de helicópteros alvejados levaram policiais a cobrar mais segurança.

"Claro que é necessário um aparelho blindado. Se queremos proteger os policiais, não tem outro jeito. Demorou muito para um policial ser atingido", diz Ronaldo Leão, especialista em armas e diretor do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ele acredita, porém, que o helicóptero americano ainda deixa vulneráveis os atiradores, uma vez que não é usado com as portas totalmente fechadas. Segundo o pesquisador, há modelos russos mais baratos com portas dianteiras menores e mais seguras.

Oliveira admite que os atiradores terão de colocar a cabeça para fora para mirarem seus alvos, mas acredita que o blindado aéreo representará mais segurança. A intenção do governo estadual é comprar outros aparelhos no futuro para unidades policiais, como o Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM. Sobre as críticas ao uso do helicóptero, o delegado explica que, do alto, atiradores tentam eliminar traficantes para proteger policiais em terra. Para ele, o contexto do confronto com o helicóptero não pode ser desconectado do que há em volta da cena.

CORÉIA

Em sua opinião, o emprego de equipamentos de guerra na segurança pública é um imperativo diante da agressividade dos traficantes. "Sou a prova viva disso", afirma Oliveira, que ainda tem alojada no pescoço a bala de fuzil disparada por um atirador do tráfico que quase o matou na operação da Coréia, em outubro.