Quarta-Feira, 26 de Dezembro de 2007 | Versão Impressa

Crise imobiliária dos EUA fará mais vítimas. Nas empresas

Vários executivos que apostaram alto na farra das hipotecas devem perder seus empregos

Rachel Beck

Ainda no verão passado (de junho a setembro no Hemisfério Norte), os analistas americanos estavam prevendo que a trapalhada das hipotecas de alto risco tinha sido contida, os diretores-presidentes dos grandes bancos estavam "flutuando" na liquidez que fluía nos mercados de crédito e os titãs do private equity ansiavam por "acabar de vez" com a concorrência.

Os tempos mudaram. A crise imobiliária e das hipotecas cresceu, tornando-se uma quebra de caixa de grandes proporções, que agora ameaça lançar a economia americana numa recessão. Pessoas e lugares distantes dessa encrenca estão sendo pegos por conseqüências negativas. É por isso que 2007 está acabando de uma forma amarga, tornando difícil se concentrar em muitas outras coisas que ocorreram no mundo do comércio neste ano.

O diretor-presidente da D.R. Horton Inc, Donald J. Tomnitz, estava bem à frente em março, quando disse o que muitos outros do ramo imobiliário não disseram:"2007 vai ser uma decepção, todos os 12 meses do calendário."

Foi uma avaliação abrupta que contrastou com grande parte do trabalho de marketing feito por financiadores, corretores de imóveis e construtoras de moradias. O consenso parecia ser que o pior logo passaria.

O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, ajudou a pôr lenha na fogueira quando disse ao Congresso, também em março, que os crescentes índices de inadimplência entre os mutuários com crédito duvidoso "tendiam a ser contidos".

Isso reforçou a confiança de Wall Street e elevou os índices das principais ações a novas alturas. Tais ganhos foram fomentados pelo ritmo recorde de aquisição de controle de empresas por meio da contração de pesadas dívidas, o que levou os investidores a esgotar as ações de empresas que eles apostaram que seriam as próximas a serem adquiridas.

De quando em quando, os negativistas tentavam estragar a diversão, mas a maioria não prestou atenção às advertências deles. O diretor-presidente do Bank of America, Ken Lewis, disse, em maio, que a única forma de fazer os investidores acordarem para os riscos das aquisições altamente alavancadas seria uma transação que desse errado."Estamos nos aproximando de um momento quando olharemos para trás e veremos que fizemos algumas coisas estúpidas", disse ele.

Entretanto, a dívida barata tornou as transações atraentes demais para estragar a festa e todo mundo parecia ansioso para participar dela, como exemplifica a atenção dada à oferta pública inicial do Blackstone Group, em junho. Pouco antes da sua oferta pública inicial, o fundador da Blackstone, Stephen Schwarzman, contou ao The Wall Street Journal como opera sua empresa de aquisição de empresas."Quero guerra - não uma série de escaramuças", disse."Sempre penso naquilo que vai matar de vez o outro proponente."

Semanas depois da muito badalada oferta pública inicial da Blackstone, as condições de crédito começaram a se deteriorar rapidamente, provocando uma súbita parada nas aquisições. De lá para cá, as ações da Blackstone despencaram, perdendo um terço do seu valor desde os US$ 31 por ação da oferta inicial.

A implosão das hipotecas de alto risco forçou uma reavaliação das dívidas arriscadas em todo o mercado. A liquidez que antes fluía livremente secou quando os financiadores de todos os setores elevaram as taxas de juros e os investidores exigiram mais proteção contra riscos.

Isso pôs bancos e outras instituições financeiras em dificuldades. Não apenas se viram incapazes de se desfazer das dívidas para financiar mais aquisições, como também seus complexos valores mobiliários em dívidas ligados a ativos de hipoteca subprime perderam valor. Cerca de US$ 100 bilhões em subprime a descoberto foram considerados perdidos pelos bancos e corretoras no mundo inteiro.

Tais prejuízos custaram os empregos de dois figurões: Charles Prince, diretor-presidente do Citigroup, e Stan O?Neal, diretor-presidente da Merrill Lynch, considerados culpados por permitir que suas empresas assumissem riscos maiores que as recompensas.

Esses executivos se foram, mas outros conseguiram ficar - para espanto de muitos analistas e investidores. No topo da lista está Angelo Mozilo, da Countrywide Financial Corp., garoto-propaganda da farra imobiliária.

O diretor-presidente da maior financiadora de hipotecas do país passou o primeiro semestre subestimando a crise do subprime e dizendo que a situação financeira da empresa "continua forte". Depois, tentou usar a jogada de que "ninguém viu a crise chegando", enquanto o setor e a empresa se desintegravam. A Countrywide teve um prejuízo de US$ 1,2 bilhão no terceiro trimestre, sua primeira perda num trimestre em 25 anos de história.

Mozilo pode curar suas feridas com os US$ 167 milhões, pelas contas da Thomson Financial, que obteve com a venda de ações da Countrywide este ano. Os investidores não tiveram tanta sorte - suas ações estão sendo vendidas a US$ 10 cada, um quarto do que valiam no início do ano.

Em outras empresas combalidas, entre elas Morgan Stanley, Bear Stearns e Washington Mundial, o emprego dos executivos está por um fio. Nos próximos meses, veremos se eles irão embora. A perspectiva para a economia não os favorece. Muitos economistas, entre eles o ex-presidente do Federal Reserve Alan Greenspan levantam a possibilidade de uma recessão.

Se isso ocorrer, afetará tanto governos locais quanto distritos escolares em lugares como Flórida e Montana, que já sentem a pressão dos investimentos em dívidas que deram errado. Outras cidades e universidades estão enfrentando possíveis elevações dos impostos porque as ofertas de títulos municipais futuros tendem a acarretar taxas de juros mais altas como resultado do fato de as principais seguradoras de títulos terem tido sua classificação rebaixada.

Isso mostra como se tornou contagiosa a encrenca imobiliária e das hipotecas. Muito maior do que quase todo mundo esperava.