Sábado, 12 de Janeiro de 2008 | Versão Impressa

Bauducco negocia joint venture com americana Hershey?s no Brasil

Se a associação for fechada, Bauducco terá 49% das ações da Hershey?s Brasil; administração será compartilhada

Patrícia Cançado

A americana Hershey?s, uma das maiores e mais antigas fábricas de chocolates do mundo, negocia uma associação com a brasileira Bauducco no País. As conversas entraram na reta final nos últimos dias, mas ainda existem alguns obstáculos ao fechamento do negócio. Caso a sociedade seja acertada, a Bauducco ficará com 49% das ações da Hershey?s Brasil e toda a administração (incluindo marketing e distribuição) será compartilhada. A discreta família Bauducco, que toca sua empresa reconhecidamente com mais eficiência que a da operação da Hershey?s no Brasil, ficará à frente do negócio.

A joint venture deve ter duração de pelo menos três anos, segundo fontes próximas às negociações. A Hershey?s informou que não comenta rumores. A Bauducco também não se manifestou. Ontem, o porta-voz da empresa estava na China.

A Hershey?s, no Brasil há dez anos - no início apenas importando e desde 2001 com produção local -, vê no parceiro local a chance de resolver seu problema de distribuição e finalmente decolar no País. Embora a subsidiária tenha dobrado de tamanho entre 2004 e 2006, ela ainda tem menos de 3% do mercado de chocolates e fatura cerca de R$ 80 milhões por ano - menos de 1% da receita global da Hershey?s, ou 10% da própria Bauducco.

É um resultado medíocre. Nos Estados Unidos, de cada US$ 100 em vendas de chocolates, US$ 35 vão para o caixa da Hershey?s. "A empresa é o caso típico de multinacional que vem para o Brasil pouco disposta a aprender e leva um baile tentando simplesmente replicar a fórmula que deu certo no seu país de origem", acredita o analista-sênior da consultoria Euromonitor, Marcel Motta. "A associação mostra que a empresa agora precisa aprender com um parceiro local."

Por décadas, a situação da Hershey?s foi confortável, o que até deu a ela uma certa fama de arrogante em relação ao que se passava além das fronteiras americanas. Afinal, dominar 35% do maior mercado do mundo é como ter hoje 100% das vendas de chocolates da América Latina ou da Rússia.

Acontece que o jogo está mudando. Os mercados emergentes, antes desprezados, são os que mais crescem atualmente. "Mais do que conseguir aumentar a participação, eles precisam dar um sinal de que estão no caminho certo, de que não estão sendo lentos no processo de internacionalização", diz uma fonte.

No fim do ano passado, a atual presidente da companhia americana, Elizabeth Peart, já não descartava a possibilidade de uma associação, a exemplo do que foi feito em 2007 na China (onde a Hershey?s tem menos de 1% do mercado) e na Índia (onde a inglesa Cadbury domina as vendas de chocolates com 70% de participação).

ESTRATÉGICO

O Brasil tornou-se estratégico para a multinacional porque já é o quarto maior consumidor mundial de chocolates. É três vezes maior que o mercado da China e chegou a movimentar US$ 2,6 bilhões no ano passado, quase 20% a mais que em 2006, segundo a Euromonitor. E ainda tem muito chão pela frente: o consumo de chocolate por habitante ainda é considerado baixo - é duas vezes e meia menor que o americano.

O interesse da Hershey?s na sociedade não é novo. As conversas começaram em maio, mas pararam no mês seguinte. "As negociações esbarraram na composição societária. A família tem apego ao negócio e não estava disposta a ceder, o que ainda continua valendo", diz uma fonte ligada à Bauducco. "Para mim, a única justificativa para a família aceitar o acordo é o orgulho de se associar a um grande grupo americano", acredita a fonte. Em termos práticos, a sociedade também permitiria à Bauducco voltar ao mercado de chocolates em um momento em que as vendas desse setor crescem acima das taxas de expansão da economia.