Quinta-Feira, 24 de Janeiro de 2008 | Versão Impressa
''''Fantasmas, são eles que dirigem meu olhar''''
Professor e historiador, Boris Kossoy mostra suas imagens em Caleidoscópio e Câmara
Simonetta Persichetti
Mas agora, Boris parece ter se sobressaído ao estudioso, ao professor que inscreveu o Brasil na história da fotografia ao defender, em 1976, na escola de Rochester (EUA), que no Brasil em 1833 Hércules Florence também havia inventado a fotografia. Suas pesquisas resultaram no livro Hercules Florence, 1833: A Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil. Também são conhecidos seus trabalhos no estudo e na decodificação da imagem e sua convicção de que a fotografia deve ser estudada como uma linguagem autônoma e não pela lingüística ou história da arte. Trabalhos esses que resultaram na trilogia: Fotografia e História; Realidades e Ficções na Trama Fotográfica e Os Tempos da Fotografia: O Efêmero e o Perpétuo. Tudo isso somado às suas aulas na graduação e pós-graduação na ECA-USP.
Suas obras são reconhecidas no mundo todo, seu nome está inscrito no circuito internacional e é presença obrigatória quando falamos ou discutimos pesquisa fotográfica, história e imagem. Nos últimos anos, porém, o fotógrafo - que nunca deixou de existir, mas não mostrava seu trabalho com tanta freqüência - começou a falar mais alto e Kossoy decidiu então mergulhar em seus arquivos, selecionar as imagens colhidas em mais de 20 anos de viagens e mostrá-las numa bela exposição na Pinacoteca. Registros que falam do tempo, da memória, que são políticos, jornalismo, introspectivos, relatos cotidianos. Crônicas de alguém que assiste a vida com o olhar atento. Num sábado calorento e nublado, ele recebeu o Estado em sua casa, em São Paulo.
Finalmente, o Boris fotógrafo volta a aparecer e com uma bela exposição, deixando o professor Kossoy um pouco para lá. Como foi esse processo?
Muitos abaixo dos 40 anos conhecem o professor Kossoy, mas não o fotógrafo, os que têm mais de 40 já tinham esquecido ou acreditavam que eu já não fotografava mais. Essa, pelo menos, é minha teoria. Achei que era hora de mostrar minhas fotos.
Mas o trabalho teórico não atrapalhou o trabalho prático. Como você conseguiu conciliar as duas coisas?
Nunca deixei de fotografar, mas quanto mais me aprofundava nos meus estudos e trabalhos, mais exigente me tornava em relação à minha produção e mais relutante em mostrar minhas obras. Mas, de repente, você chega a certa altura da vida e pensa: ''''Acho que está na hora de mostrar.'''' E, ao contrário do que você perguntou, a minha expressão fotográfica em si complementa meu trabalho teórico. Por isso falei em pagar a dívida com meus leitores. A teoria alimenta minha prática.
Suas primeiras imagens profissionais realizadas nos anos 70 são surrealistas ou fantásticas - não sei como você as define - e foram algo inovador para aquela época. Depois que você mergulhou na teoria seu olhar mudou? Para você melhorou ou piorou?
Imagens surrealistas? Nunca. Fantásticas, pode ser. Mas esta resposta é muito complicada. Não dá para colocar nesta dimensão ou escala. Houve, sem dúvida, um salto. Para muitos o núcleo forte do meu trabalho se encontra nesta série do fantástico. Mas devemos levar em conta o momento em que este trabalho surgiu.
Que foram os anos 70...
Exatamente. Devemos levar em conta o contexto político, social e cultural do País e da cidade. Falo da cidade porque São Paulo sempre teve uma importância muito grande no contexto político e era o meu lugar... então concordo, sim é importante aquele núcleo. Mas além desta série havia a do Brasil, a dos cartões antipostais em que eu ironizava os slogans da época ''''Brasil ame-o ou deixe-o'''', ''''O último a sair apague a luz'''', etc. Enfim, eram fotos com um contexto político muito forte, pois o tempo era aquele. Claro que hoje elas adquiriam novas significações, pois o tempo é outro e as pessoas são outras. Além disso, eu tenho uma série de registros feitos nos Estados Unidos, em 1971, que quase ninguém conhece. São imagens feitas por uma jovem que chega a Nova York e descobre uma cidade, e que sofre um contraponto com o que estava vivendo no Brasil. Nestas imagens estou mais próximo do fotojornalismo. Depois temos as da década de 80 que são resultado de viagens à Europa. Imagens - percebi há pouco tempo - que são muito escuras, introspectivas e que correspondem ao meu momento pessoal, às minhas indagações. Depois volto a uma busca de signos e detalhes da paisagem urbana e da natureza que me remetem aos primeiros trabalhos. Tudo isso para dizer que cada época teve sua importância.
Entendo, mas vou insistir. De onde veio a influência do fantástico?
Sem dúvida do realismo mágico que atinge os países sul-americanos, mas que passa à deriva da literatura brasileira e da fotografia brasileira. Tem essa ligação literária forte, e outras buscas na ficção. Mas isso de alguma maneira perpassa minha obra toda, nas diferentes fases. De todas essas fases que acabei de descrever. É uma persistência do olhar.
E você se deu conta disso, dessa persistência do olhar, na medida em que fotografava ou agora que precisou reunir todas essas fases para a exposição?
Agora eu percebi isso de forma teórica. Mas antes essa coerência era intuitiva e natural. Costumo dizer que não importa aonde você vá, seus fantasmas sempre estarão com você e é com eles que você fotografa, são eles que dirigem seu olhar.
Por que caleidoscópio?
Justamente por isso, porque na verdade são as suas imagens mentais.
Mas o que o levou para a fotografia?
Comecei muito cedo, mas nada muito importante. Dos meus 15 anos aos 20 e poucos estive envolvido com a arquitetura, o desenho, fotos, etc. Minha relação com a fotografia já se dá comigo adulto, não mais uma experimentação, mas algo já mais formalizado, depois que eu tinha me formado em arquitetura.
E o que o levou a teorizar a imagem?
Minha aproximação acadêmica com a fotografia se deu por meio da história. Quis estudar a imagem além da lingüística ou da história da arte. Isso para mim nunca fez sentido. Tentei compreender a fotografia e fui atrás, o que levou praticamente mais de 20 anos, que é o tempo da trilogia: Fotografia e História, Realidades e Ficções na Trama Fotográfica e Os Tempos da Fotografia.
Você acredita que nessa trilogia encontramos a síntese do seu pensamento sobre fotografia?
Sem dúvida reflete a essência do meu pensamento. E a partir daí se pode pensar a crítica, se pode pensar história e encontrar chaves para a compreensão da fotografia como objeto, como fonte, como meio de informação. Ou seja, a imagem como objeto e a fotografia e suas aplicações. Claro que não é algo fechado que pode ser discutido, ampliado, etc. Mas foi isso que eu fiz, foi isso que eu pude fazer.
Você consegue vislumbrar suas séries dentro de cada um dos livros da trilogia ou o fazer fotográfico e o pensar a fotografia seguiram caminhos próximos, mas diferentes?
Ainda bem que são desvinculados. Caso contrário, eu seria um robô. As imagens vieram antes da teoria. Eu respeito muito isso. Na verdade, minha obra teórica é que não existiria se não fossem meus trabalhos fotográficos.
Como foi editar esse material para essa exposição?
Foi muito difícil. Minha sorte é que foi um processo muito lento. E foi a primeira vez na minha vida que não reclamei do processo. Curti muito essa idéia desse tempo. E fiquei assustado quando vi que ele tinha diminuído. Mas foi o tempo certo para revirar pastas que não mexia há décadas, olhar negativos que eu havia descartado.
Você se surpreendeu então com seu material?
Eu me surpreendi. Tive de rever tudo com outros olhos. Tinha muito receio de que a série do fantástico tivesse um peso muito forte em relação ao restante. Mas com o tempo percebi que não, que tudo tem sua importância. Cada série corresponde a um momento da minha vida, do País, etc. Tudo muda e minhas imagens também. Depois cada um vai avaliar como quiser.
Em 2007 você publicou o último livro da trilogia e agora começa o ano com essa exposição. Você sente como se tivesse encerrado uma etapa para iniciar outra?
Não penso assim, nem quero. Confesso que demorei a colocar um ponto final no livro Os Tempos da Fotografia, porque coloquei na cabeça que tinha de fazer uma trilogia. Mas fui eu que determinei isso. Por isso, acho que não acabou. Enquanto continuarmos a ver e a pensar, nossas indagações e nossos fantasmas continuam ativos e isso nos leva a mais uma cena e, portanto, a uma nova descoberta.
Serviço
Boris Kossoy o Caleidoscópio e a Câmara. Pinacoteca. Praça da Luz, 2, 3324-1000. 3.ª a dom., 10 h às 18 h. R$ 4 (sáb. grátis). Até 30/3. Aberturaamanhã, às 11 h