Domingo, 27 de Janeiro de 2008 | Versão Impressa

Dívida eterna, o pesadelo americano

Crise pressiona consumidor a largar compulsão por endividamento

Patrícia Campos Mello

Quando entrou para o grupo dos devedores anônimos (DA), em 2002, a professora americana Tamara Smith tinha US$ 36 mil em dívidas de cartão de crédito, impostos e assistência médica. Tamara não dormia de tanta angústia. Mas, mesmo com essa dívida sufocante, não resistia e sempre fazia umas comprinhas - nem que fosse uma bolsa no camelô do metrô. "Hoje, depois de seis anos no DA, aprendi que não posso usar cartão de crédito, e preciso pensar 72 horas antes de comprar qualquer coisa", conta Tamara, que tem 40 anos e mora em Washington.

Os Estados Unidos, que também são devedores compulsivos, deveriam aprender um pouco com Tamara. Os americanos têm US$ 10 trilhões em dívida imobiliária e cerca de US$ 1 trilhão em dívidas no cartão de crédito. Em média, cada americano que tem hipoteca tem um financiamento de US$ 200 mil. Já a dívida de cartão de crédito é de cerca de US$ 7 mil por pessoa.

Por anos, o consumidor americano carregou o país nas costas. Ele resistiu bravamente ao 11 de setembro, à bolha da internet e continuou gastando mais e mais. Como a renda não crescia, eles refinanciavam seus imóveis, que estavam com preços recordes. Usavam o dinheiro para continuar consumindo e, assim, mantinham a economia crescendo.

Mas as turbulências da última semana são um sinal de que, após anos vivendo no cheque especial, os Estados Unidos vão ter de entrar na linha. A bolha imobiliária explodiu e os preços dos imóveis estão caindo - isso acabou com a habilidade de muita gente de usar sua casa como caixa automático.

Muitos que têm hipotecas com juros variáveis estão enfrentando agora reajustes das taxas. A renda da classe média americana não cresce. O desemprego chegou a 5% em dezembro, o mais alto em dois anos. Para completar, os preços dos alimentos e do petróleo não param de subir. Resultado: o consumidor americano pede arreglo. "Muitos consumidores estão chegando ao limite de endividamento", diz Dean Baker, diretor do Center for Economic and Policy Research.

Segundo uma pesquisa da Lending Tree, empresa de gerenciamento de crédito, quase metade da população americana (48%) se sente desconfortável com a quantidade de dívidas que tem.

Em 2007, o número de americanos que declarou falência pessoal cresceu 40%, por causa da dificuldade de pagar hipotecas e dívidas de cartão. Foram 801.840 americanos declarando falência pessoal no ano passado, ante 573.203 em 2006. As dívidas de cartão de crédito estão crescendo mais de 10% ao ano (cresciam de 3% a 4% ao ano entre 2003 e 2005).

"Muitas pessoas que tomavam emprestado em cima de suas casas agora se vêem obrigadas a recorrer ao cartão de crédito", diz Baker. "Agora as pessoas precisam economizar - milhões de americanos pensaram que tinham mais dinheiro ?aplicado? em suas casas do que realmente tinham, e eles vão ter de compensar essa enorme perda de riqueza e economizar para a aposentadoria."

TRÊS URSOS MAUS

Segundo o ultrapessimista Nouriel Roubini, presidente da RGE Monitor e professor da Universidade de Nova York, foram "os três ursos maus que acabaram com a economia cachinhos de ouro" - a crise do subprime, o fim do crédito barato e a alta do petróleo acabaram com a festa dos consumidores dos Estados Unidos.

Sim, porque da mesma maneira que o consumidor toma emprestado, o país também se enche de dívidas. Para financiar sua sede por importações, os Estados Unidos vendem títulos (tomam emprestado) dos chineses e de países ricos em petróleo. Resultado: déficit comercial de US$ 750 bilhões. Também precisam financiar o gigantesco déficit do orçamento, previsto para ficar em US$ 219 bilhões em 2008 (número que pode aumentar muito, dependendo do pacote de estímulo fiscal).

Segundo Christian Weller, pesquisador sênior do Center for American Progress e professor de Políticas Públicas da Universidade de Massachusetts, em Boston, a única esperança dos Estados Unidos é aumentar suas exportações. "Com menos gastos dos consumidores, a economia vai desacelerar, a não ser que outros setores comecem a crescer mais rapidamente; mas acho difícil isso acontecer", diz Weller.

Menos gastos do consumidor significam menor crescimento da renda, o que, por sua vez, traz menor arrecadação de impostos, que leva a menos gastos do governo. Menos gastos do consumidor também vão se refletir em menos investimentos das empresas.

"Existe apenas um setor da economia que pode compensar o menor gasto dos consumidores: exportação". Segundo Weller, as exportações dos Estados Unidos já têm um melhor desempenho nos últimos três anos, por causa da queda do dólar e do grande crescimento de outros países. "Sem aumento significativo nas exportações e queda no déficit comercial, os Estados Unidos vão continuar patinando."