Quarta-Feira, 06 de Fevereiro de 2008 | Versão Impressa

CNBB inicia mobilização contra o aborto

José Maria Mayrink

Usando pela terceira vez a defesa da vida como tema, a Igreja Católica lança oficialmente hoje, na Quarta-Feira de Cinzas, a Campanha da Fraternidade 2008 e coloca em debate questões como o direito e o dever de profissionais da saúde se oporem ao aborto e a ética em torno do uso de células-tronco embrionárias.

Iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que se repete há 45 anos, a campanha de 2008 terá o lema "Escolhe, pois, a vida". Essa será a sétima vez que a palavra vida aparece ao lado de valores como esperança, dignidade, terra, água e combate às drogas. Na mesma linha, a CF-2008 "expressa a preocupação com a vida humana, ameaçada desde o início por causa do aborto até sua consumação em vista da eutanásia", afirma o texto-base divulgado pelo episcopado para orientação dos fiéis. "O objetivo geral é levar a Igreja e a sociedade a defender e a promover a vida humana desde a sua concepção até a morte natural", acrescenta o documento.

Em São Paulo, o cardeal-arcebispo d. Odilo Scherer fará o lançamento e celebrará a missa às 15h30 na Catedral da Sé. Já o secretário-geral da CNBB, d. Dimas Lara Barbosa, lançará em Brasília a campanha em nível nacional. Para 2009, o tema escolhido foi a segurança pública. A mobilização da campanha inclui uma coleta de doações que, em 2007, rendeu R$ 3,5 milhões (dados ainda incompletos).

Depois de dois capítulos sobre a cultura da morte, afetividade e sexualidade, nos quais alerta para os desafios das novas tecnologias, denuncia a violência nas prisões e aponta a liberação da atividade sexual como responsável pela aids e pela gravidez indesejada, o texto da CF apresenta a visão da Igreja sobre a vida não-nascida, sofrimento e morte, a ameaça da pobreza e a questão do meio ambiente. Contracepção, aborto, reprodução assistida, eugenia, células-tronco, violência, fome, suicídio e eutanásia são alguns itens analisados nas páginas seguintes, num diagnóstico baseado em princípios da doutrina cristã e ensinamentos dos papas.

Cientistas, médicos e psicólogos também são citados. Ao criticar a liberdade sexual como exigência do mercado "para aumentar o lucro e expandir o capitalismo", a CNBB recorre ao estudo da filósofa Marilena Chauí - Repressão sobre o sexo: essa nossa (des)conhecida - para mostrar que "essas contestações não partem apenas de reacionários defensores de uma sociedade reprimida do passado". Dados oficiais e reportagens somam-se aos conceitos religiosos. O Documento de Aparecida, aprovado pela 5ª Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe, é lembrado várias vezes.

Embora o texto não recorra a anátemas para condenar ninguém, mas, ao contrário, mostre compreensão e disposição de acolher quem vai contra a orientação oficial, os temas são tratados de acordo com os princípios da Igreja. Seguindo a metodologia ver, julgar, agir, usada tradicionalmente em reflexões desse tipo, o texto apresenta a realidade de cada questão, lembra a posição da moral católica diante dela e convida os fiéis a defender a vida com discernimento e responsabilidade.

Para a Igreja, a pobreza é uma das grandes ameaças à vida no País. "A contracepção e o aborto não podem ser considerados soluções para os problemas decorrentes da pobreza", afirma o texto-base.

ITENS DO DOCUMENTO

Avanços científicos:
"As ciências e as novas tecnologias são instrumentos poderosos tanto de auxílio como de ameaça à vida. Em teoria, o conhecimento de natureza biológica e física não deveria ser influenciado por preconceitos, ideologias e interesses pessoais. Na prática, contudo, o caminho da pesquisa é influenciado por interesses de mercado e políticos"

Aborto: "Todo aborto provocado nega a uma criança o direito de viver, quando ela ainda não pode se fazer ouvir. (...) Os profissionais da saúde têm o dever de acolher a todos. No entanto, têm também o direito e o dever de se opor ao aborto"

Células-tronco: "O problema ético que se apresenta está no
processo da obtenção"