Sexta-Feira, 15 de Fevereiro de 2008 | Versão Impressa
Garota diz que ficou 6 anos em porão
Jovem de 19 anos acusa dono de bar de Luziânia de mantê-la em cárcere privado, de estupro e de matar bebê
Rubens Santos, GOIÂNIA
"Ele começou a me estuprar quando eu tinha 10 anos", disse a moça, cujo nome não foi divulgado, para a delegada da Mulher, Dilamar de Souza. Segundo a policial, a jovem tinha 13 anos quando foi aprisionada no porão do bar Vagalume, do qual Silva é proprietário, no Bairro Sol Nascente. O local tem paredes mofadas, chão úmido e pouca ventilação.
A garota disse que Silva enterrou o bebê assassinado, nascido dois anos atrás no Hospital Regional de Luziânia, no quintal do terreno do bar. A polícia fez buscas ontem para localizar a ossada, sem sucesso. Um dos detalhes que chamaram a atenção dos policiais é o fato de os vizinhos terem dito que ignoravam a situação da prisioneira durante esses seis anos.
A delegada afirmou que, no depoimento, a menina contou que conseguiu escapar do cativeiro na semana passada, após um tiroteio no bar, no qual Silva foi alvejado. A jovem contou que, no momento em que o comerciante era levado para o hospital, percebeu que a porta do porão estava aberta, fugiu e buscou proteção na delegacia.
Após ouvir o depoimento da adolescente, a polícia foi ao hospital tentar localizar Silva, sem sucesso. O comerciante teve a prisão preventiva decretada.
A jovem contou à delegada que conheceu o comerciante quando tinha 10 anos, enquanto pedia comida, nas ruas do bairro, para sua família - mãe, pai e três irmãs. Na época, disse, Silva lhe deu alimentos, mas exigiu, em troca, que ela tirasse a roupa. A garota afirmou que, depois de se recusar a ficar nua, foi estuprada. Ela contou que o comerciante sempre ia buscá-la em casa e a levava ao bar para novos estupros.
Pelo depoimento da garota, seus pais denunciaram o caso à polícia local e o comerciante ateou fogo ao barracão em que a família morava. A adolescente disse que fugiu com os parentes para Taguatinga, no Distrito Federal, mas, quatro meses depois, foram descobertos por Silva. De acordo com a garota, sua mãe foi assassinada - ela acredita que o crime foi cometido por Silva. Depois disso, o pai sumiu e a jovem, com medo, voltou para o bar, onde ficou até a semana passada.
A história de Luziânia lembra um caso de cárcere privado que ficou famoso, revelado em agosto de 2006. Na cidade de Straschof, Áustria, a jovem Natascha Kampusch, então com 18 anos, fugiu de um cativeiro na garagem da casa do eletricista Wolfgang Priklopil, que a havia seqüestrado oito anos antes. Ela aproveitou que Priklopil se afastou para usar o celular e fugiu. Ao perceber a fuga, o eletricista cometeu suicídio, atirando-se em trilhos de trem. O caso provocou muita controvérsia - a mãe de Natascha chegou a ser acusada de envolvimento no seqüestro, mas nada foi comprovado.