Domingo, 17 de Fevereiro de 2008 | Versão Impressa

''''Dá vontade de cortar sua cabeça'''', diz ''''juiz'''' do PCC a condenado à morte

Grampo da polícia mostra ?julgamento? de agricultor; promotor de Limeira quer condenar mandantes de execução

Chico Siqueira

Grampos da polícia mostram como funcionam os "tribunais" do PCC. A sentença para seqüestrar, torturar e matar o agricultor Everardo Roque de Lima, no Natal de 2006, partiu do detento Marcos Aparecido Machado, o Maloqueiro, preso na Penitenciária de Sumaré, a 120 quilômetros de São Paulo.

Nas próximas semanas, a Justiça deve se pronunciar sobre a condenação dele e de outros acusados: Alessandro Ricardo de Souza, o Quá-Quá; Fabiano Barbosa dos Santos, o 2L; Flávio Rodrigo Dias, o Pio; Jerry Adriano Ferraz, o Jerry. O promotor Luiz Alberto Segalla Bevilacqua pediu que os cinco sejam levados ao Tribunal de Júri Popular de Limeira por homicídio qualificado e formação de quadrilha.

Na manhã de 25 de dezembro de 2006, depois de criminosos terem seqüestrado o agricultor, Quá-Quá, líder do PCC em Limeira, ligou para Maloqueiro para pedir a condenação de Lima por supostamente estuprar A.A.B., identificada como Sônia. Maloqueiro responde que precisa de autorização: "Irmão, minha visão é xeque-mate (sentença de morte). Mas esta situação não fecho pra cima (não pode autorizar pelos superiores). Não posso decidir uma situação de vida sozinho (pena de estupro se paga com vida) ou só com os irmãos da sintonia da quebrada. Preciso da sintonia lá dos irmãos que fecham na final comigo, tanto da rua quanto do sistema, entendeu? Vamos buscar os irmãos para nós pegarmos pesado. Mas, por enquanto, de praxe, quebra a perna e o braço desse cara, dá um pau bem dado, deixa ele de molho legal e na seqüência vou estar chegando com um irmão aí passando um resumo final dessa caminhada." Os dois decidem então prender e torturar Lima até o tribunal.

2L: "Estamos com o frango ali já faz umas horas, já quase morreu. Ele tentou fugir, mas pegamos ele de novo. Chegou a polícia e ele escapou. Peguei ele de novo com meu carro. O cara até molhou o banco."

Às 15h23, Pio liga para Maloqueiro, que já havia sido autorizado a fazer o tribunal com ele, 2L, Quá-Quá e Jerry, e descreve o fato ao tribunal. Maloqueiro pede para ouvir o agricultor:

Maloqueiro: "E aí peão? O que aconteceu? O peão foi preso alguma vez?"

Lima: "Não."

Maloqueiro: "Tem 34 anos?"

Lima: "É."

Maloqueiro: "Então fala pra nóis o que aconteceu."

Lima: "No começo estávamos no forró, dançando, bebendo, meio chapado. Aí ela apareceu e pediu pra pagar uma cerveja pra ela e eu paguei. Ela ?tava? chapada e ficou ruim e nós ?desceu? embora. Aí, no meio do caminho, ela caiu. Peguei e levei pra casa. Cheguei e ela tava deitada e transei com ela."

Maloqueiro: "Como é? Ela tava acordada?"

Lima: "Ela tava meio desacordada. Aí tinha um molequinho de 12 anos que viu."

Maloqueiro: "A criança viu?"

Lima: "Viu."

Maloqueiro: "Você é um desgraçado, um arrombado, um bicho da pior espécie, a vontade que tenho é cortar sua cabeça. A criança ainda viu... Não posso tirar a vida desse cara. Quebra os dois braços e uma perna desse cara. Qual a visão dos irmãos aí?"

Pio: "Minha opinião é que esse cara pode estar passando doença, pode deixar a menina grávida, doente, irmão."

Quá-Quá: "Ela fala que foi sozinha pra casa dela e não lembra o que o cara fez. Minha visão é a mesma do nosso irmão. Se a gente erra, tem que vazar também e esse cara erra e pode voltar a fazer isso com outras pessoas."

2L: "Esse cara aí falou com palavras dele que errou. Momento algum a menina falou pra levar ela pra casa dela."

Maloqueiro: "Como ela chegou na casa dela?"

2L pergunta a Sônia, que explica que tinha bebido, não sabe como chegou em casa e só soube do estupro ao acordar.

Maloqueiro: "E qual sua visão, irmão?"

2L: "Ele falou que errou. Tem que ter punição. Falou com as palavras dele. Mora oito anos na quebrada. Cabe disciplina nossa (...) Minha opinião é a mesma dos irmãos. Ele fala com palavra dele que errou."

Jerry: "Ele já conhece a disciplina da quebrada. Já vem há oito anos que tá aqui na quebrada. O cara era da hora que nunca deu nada, mas o que ele fez, a menina não viu nada, só foi saber disso porque a criancinha dela presenciou. Se ele errou, tem que pagar."

Maloqueiro: "Deixa eu falar com o Pio."

A ligação cai. Pio liga novamente.

Maloqueiro: "A criança viu, presenciou, irmão. Esse cara é um verme, irmão, sem futuro. O cara estuprou a mina. Até então... O problema é que a criança presenciou, irmão..."

Pio: "Ô, irmão, ô irmão, vou chutar o pau da barraca porque senão o cara da geral vai viajar. É xeque-mate (morte), irmão, e vamo que vamo. Nós divide a responsabilidade, maloca?"

Maloqueiro: "É isso aí!!!. Porra. Sujou aí, não só nós como os irmãos têm a mesma opinião aí, e os da cidade. Vamos que vamo."

Pio: "Vamos dividir a responsabilidade, a pouca idéia e vamos que vamos."

Maloqueiro: "Você faz o corporativo detalhadamente pro irmão lançar no livro lá pra depois amanhã ou depois alguém perguntar e o que aconteceu, aí vai estar bem ciente no livro lá, irmão. Vamos desligar o telefone e some com esse cara aí. Leva esse cara pro Paraguai (executa Lima) lá."

Às 23h50 de 25 de dezembro de 2006, Quá-Quá diz ao "irmão" que avisou Maloqueiro que o agricultor foi ao Paraguai (foi morto): "E aí, irmão, boa noite... Tô chegando, fui pagar contas da minha mãe. Já bati lá em cima pro maloca, ele perguntou se eu já tinha ido pro Paraguai. Disse: ?Com certeza?. Sei de nada, não vi nada, cada um tem o que merece."