Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2008 | Versão Impressa
SP precisa criar estruturas de poder metropolitano, diz ONU
Entrevista[br]Anna Tibaijuka: subsecretária-geral da Organização das Nações Unidas [br]Para diretora da Hábitat, combate à poluição e ao crime e melhoria do transporte exigem políticas conjuntas de municípios
Adriana Carranca
Qual é o maior desafio das cidades?
2007 foi um marco na história humana. A população urbana ultrapassou a rural pela primeira vez. Isso poderia ser motivo para comemoração, já que as cidades são centros de criatividade e desenvolvimento econômico, mas, infelizmente, 1 em cada 3 de seus moradores vivem em favelas - algo como 1 bilhão de pessoas - e 90% estão localizados em países em desenvolvimento. Na África sub-saariana a taxa de crescimento urbano e das favelas é praticamente igual: 4,58% e 4,53% ao ano. Ao lado da Ásia, os dois continentes absorverão 60% do crescimento urbano. Já na América do Sul, onde a urbanização parece estável, o desafio é vencer desigualdades. De acordo com pesquisas do UN-Hábitat, os ricos ficam com fatia do PIB de 4 a 10 vezes maior que a dos pobres, que sofrem com falta de acesso a habitação, saneamento, educação e saúde e, assim, ficam presos num ciclo de pobreza que afeta o desenvolvimento do país.
A migração rural-urbana é mesmo irreversível?
É praticamente impossível pará-la. Mas seu ritmo já diminuiu, contribuindo com apenas 25% do crescimento urbano do mundo, enquanto a migração entre cidades e para outros países está se tornando mais importante. Ao mesmo tempo, é a taxa de natalidade que mais contribui (50%) com o crescimento das cidades.
O avanço urbano fará surgir "metacities" com mais de 20 milhões. Como evitar o caos?
Os romances de Dickens são testemunhas de que Londres já foi rodeada de favelas. Em Nova York, há 50 anos a única megacidade mundial, Jacob Riis registrou a vida dos menos afortunados. Com o tempo, elas foram vencendo seus problemas. Tóquio se tornou uma megacidade em 1965, mas o crescimento urbano foi acompanhado por desenvolvimento e distribuição de renda. Esses exemplos mostram que é possível urbanizar sem "favelizar".
Qual o maior desafio para São Paulo?
No caso de São Paulo, a governabilidade tem se tornado um problema, uma vez que a área urbana se espalhou para além das divisas da cidade. O principal desafio, portanto, é estabelecer uma estrutura metropolitana que responda aos desafios de toda a aglomeração urbana em torno da metrópole. Em outras palavras, você precisa estabelecer uma estrutura de governo local (metropolitano) que trate desses dos problemas em comum - principalmente controle da poluição, transporte, crime e pobreza - de forma estruturada.
O que o Brasil pode fazer para evitar a favelização?
As cidades brasileiras têm o maior nível de desigualdade de renda (medidas pelo coeficiente Gini) do mundo. Isso é um problema. Pesquisas sugerem que há quatro principais argumentos sobre por que esse tipo de desigualdade será prejudicial ao crescimento do Brasil. Primeiro, a distribuição de renda desigual leva a uma pressão por redistribuição via impostos perversos. O segundo problema é que a desigualdade comumente leva a instabilidade sociopolítica, o que, a longo prazo, reduz investimentos externos. O terceiro é que, num cenário de mercados de capital imperfeitos, desigualdade significa menos investimentos em capital humano. O último argumento é o de que as taxas de natalidade crescem na medida do aumento da desigualdade e da redução do investimento em capital humano.
A globalização ajuda ou não o desenvolvimento urbano?
Ela tem ajudado as cidades a tirarem proveito do comércio mundial. Mas isso obriga as autoridades locais a investirem em infra-estrutura para atrair o capital internacional ao custo da redução de recursos para necessidades básicas.
Qual o papel das cidades no aquecimento global?
As cidades sempre foram apontadas como um tumor maligno, que geram lixo e poluição, consomem a maior parte dos recursos naturais e contribuem para a degradação ambiental. Mas defendo a tese de que as cidades também podem contribuir com a melhora da qualidade de vida e o ambiente porque proporcionam economia de escala. Alta densidade urbana significa menos custos per capita para água encanada, tratamento e coleta de esgoto e lixo. A concentração de pessoas reduz a demanda por terras. O transporte, nesse caso, é um grande desafio, porque tem sido e privilegiado o uso dos automóveis. Estes não apenas causam poluição como levam as cidades a se alastrarem para as áreas metropolitanas, como ocorreu em São Paulo. Investimentos em transporte coletivo são fundamentais.
Um dos problemas mais graves das cidades brasileiras continua sendo a violência...
Pobreza, desigualdade e crescimento urbano acelerado são ao mesmo tempo as causas e conseqüências da violência. As áreas mais atingidas são estigmatizadas, viram zonas proibidas, perdem investimentos em infra-estrutura e serviços públicos. As pessoas mais bem educadas e a classe media vão para longe. Tudo isso perpetua um ambiente em que é menor a proporção de cidadãos que cumprem a lei do que daqueles envolvidos em atividades criminosas. Muitos negócios vão embora, como ocorreu com o centro de várias cidades. E, com eles, também os investimentos estrangeiros. O peso financeiro da violência chega a 25% do PIB de países da América Latina como Colômbia e El Salvador.
Você continua otimista sobre o futuro das cidades?
Cidades bem gerenciadas podem ser locais de inovação, avanço político e social e locomotivas de crescimento econômico. Mas qualquer solução requer intervenções políticas, liderança regional, muitos recursos e estratégias de longo prazo.
Quem é:
Anna Tibaijuka
Subsecretária-geral da ONU, estudou Ciência Agrícola na Universidade de Uppsala, Suécia. Acumula o cargo de diretora-executiva da UN-Hábitat