Sexta-Feira, 22 de Fevereiro de 2008 | Versão Impressa

Sou eu na minissérie da Adelaide?

Ignácio de Loyola Brandão

Se Big Brother estarrece os mais lúcidos pelo seu louvor à estupidez humana, minha perplexidade atingiu um ponto inimaginável ao ler a declaração do participante Fernando Mesquita, que, cheio de orgulho, declarou: ''''Graças Deus, nunca fui de ler livro.'''' A frase correu, a imprensa registrou. Não me assombra que o jovem diga isso. Participar do Big Brother é atestado de nível mental menos 12, menos 30, menos 200. O que me deixa indignado é o relevo dado a uma frase negativa, porque esse programa lamentavelmente tem alto índice de audiência.

Não sei se esse Mesquita já foi eliminado ou se tem chances até de ser o vencedor. O problema é que enquanto alguns idealistas se matam para implantar o hábito de leitura, alguns pais e professores se esforçam, livreiros e escritores batalham, um sujeitinho vem e se vangloria de algo que deveria envergonhar e entristece todos nós.

Estava na padaria comendo meu sanduíche Minas Quente e abri a Vejinha São Paulo com a Maria Adelaide Amaral na capa. Tenho admiração por ela. Seguiu a carreira que eu gostaria de ter tido: ser roteirista. Preguiçoso, sempre achei mais ''''fácil'''' escrever contos e romances e fui em frente. Um dia, me encontrei nas crônicas, caminho fascinante. Minhas desculpas sempre foram de que o romance é meu, o sucesso ou fracasso dele são minha responsabilidade. Nunca fui nem serei escravo do Ibope, dizia. Qual o quê! Gostaria de ter essa experiência, ser escravo da audiência, começar uma história e mudá-la de acordo com a necessidade, com a ''''tirania'''' do público, ter de exibir engenhosidade, virar a mesa. Sentir na hora a repercussão do que escrevemos. Autores de novelas demonstram talento, criatividade, jogo de cintura, rapidez, compreensão do que é o veículo. Alguém tem idéia de como trabalhavam os roteiristas de Hollywood responsáveis por filmes clássicos? Eram funcionários de ponto e cartão. Faulkner foi um deles, Scott Fitzgerald, outro. ''''Não é por aí, então vamos por aqui!'''' As novelas são desafio, colocam à prova. Nós? Atingir e mover/comover as pessoas com nossas palavras. Quem não quer? Só me lembro de um autor que anos atrás enfatizava: ''''Não me interessa o leitor. Não quero ser lido.'''' Foi o Diogo Mainardi, que ironicamente acabou sendo muito lido.

Não quer dizer que sou frustrado e infeliz escrevendo romances e contos e crônicas. Sou feliz, e demais! É sonho e paixão! Prazer, divertimento, delícia, responsabilidade. Alguns sucessos, outros fracassos, mas a carreira é assim, quem pensa que só se vence, que vá fazer outra coisa. A imponderabilidade da escrita, quem ela vai atingir, como circulará? É o mistério que nos embala. Mesmo nos fracassos alimentamos a esperança de que em algum momento vão nos entender. A história da literatura tem sido assim. Morremos a cada livro, renascemos no próximo.

Maria Adelaide. Eu a conheci na Editora Abril nos anos 70. Já se avaliou o tanto de gente que veio da mídia para a literatura? Ela trabalhava nos fascículos, era apaixonada por História e pesquisas. Não é à toa que realizou Os Maias, A Muralha, A Casa das Sete Mulheres, Um Só Coração e JK. Todos bem acabados como roteiro. Mas por que as minisséries executam uma ciranda infernal de horários da Globo? Fica difícil acompanhar.

Tudo isso para dizer que, se não escrevo minissérie, ao menos soube que ''''inspiro'''' personagem. Foi dito na Vejinha que em Queridos Amigos certos personagens foram baseados em pessoas reais. Em geral, deixa-se a decodificação para o futuro. Mas o jogo foi aberto. O Pedro da telinha, diz a revista, foi baseado em mim. A minissérie é a adaptação do romance Aos Meus Amigos, que Adelaide publicou 16 anos atrás. ''''Tem algo de você nesse homem'''', me disse na época. Isso me diverte, vou ver como sou visto. Sou eu? Ou uma combinação eu e algum outro? Eu real misturado ao meu eu ficção? O olhar do outro. Será que sou assim ou fui assim? Não pensem que é fácil fazer um personagem a partir de um amigo. Temos de revolver uma montanha de sentimentos.

O personagem central de Queridos Amigos é Leo, baseado no poeta Décio Bar, com quem convivi. Décio decidiu e se foi da vida por conta própria. Leo é Dan Stulbach e eu, que conheci bem Décio e conheço Dan, digo que não há melhor escolha. Quem sabe agora a obra de Décio Bar seja recuperada, se descubra o autor que foi, inquieto, sôfrego. Quanto ao Pedro (aliás, nome de meu neto), vivido pelo Bruno Garcia, vou me ver. Se sou eu ou se é um Ignácio idealizado. Literatura é assim. Dicas para o Garcia: sou tímido, ansioso, tenho a cara amarrada (difícil arrancar um sorriso meu), sou o que entra na loja e compra a primeira coisa que o vendedor oferece, depois nunca uso, a impontualidade me irrita, não suporto papo-cabeça de chatos, fui vaidoso, hoje sou menos. Dois detalhes: nunca tive barba e odiava a bolsa capanga, tão 70. O Ignácio dos anos 70 e 80 é outro, diferente deste de hoje. Porque, tanto Adelaide quanto eu passamos pelo momento crucial que é o de chegar ao limite e não transpor a fronteira, não ir embora. Ficamos para viver, continuar a escrever. Aprendemos melhor, ela e eu, o que é a vida, o que é viver. Descobrimos o que tem importância, o que nos é essencial. Aprendemos também o que pode ser descartado, como os rancores, desamores, invejas, ciúmes, amarguras, ressentimentos e o sentimento de posse a qualquer custo.