Quarta-Feira, 12 de Março de 2008 | Versão Impressa
Novo critério de fila por fígado ainda não reduziu mortalidade
Mas desde adoção, em julho de 2006, Meld diminuiu inscrições desnecessárias na lista
Fabiane Leite e Letícia Santos
A avaliação dos dados também aponta que, pela primeira vez, foi possível priorizar pacientes com câncer de fígado e com doenças metabólicas, que no critério cronológico muitas vezes não tinham chances. Os números indicam ainda que, diferentemente do que previam críticos da adoção do Meld, não houve piora da sobrevida dos pacientes transplantados.
"O Meld foi um progresso e a grande vantagem do critério é que ele permite ajustes. Agora, torna-se aparente um fato: podemos considerar que houve um exagero no atendimento dos cânceres", afirma Silvano Raia, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e pioneiro em transplantes de fígado no País que vem realizando um acompanhamento dos dados do Estado e também um estudo para o Ministério da Saúde sobre o impacto do critério em oito Estados, incluindo São Paulo. Para ele, dispositivos introduzidos junto com o Meld que beneficiaram os portadores de câncer acabaram por prejudicar outros doentes graves, o que também explicaria o aumento da mortalidade.
O Meld atribui uma pontuação ao paciente, que varia de 6 a 40, de acordo com cálculos realizados a partir de três exames realizados periodicamente. No entanto, casos como os de câncer são considerados especiais e entram na lista já com pontuação 20, que é gradativamente aumentada, o que garante prioridade em relação a doentes graves já com insuficiência do fígado, por exemplo. Segundo Raia, a situação em outros Estados é semelhante. "Os resultados confirmam esta tendência de São Paulo. A porcentagem de câncer nos transplantes aumentou." Para o professor, é hora de discutir aperfeiçoamentos do critério.
Um melhor acompanhamento dos casos inscritos na espera também pode explicar o aumento dos óbitos, diz o coordenador da Central de Transplantes do Estado, Luiz Augusto Pereira. Ele reconhece que muitos pacientes graves ainda não estão sendo contemplados. "Só cerca de 40% dos transplantados são operados pela situação de gravidade segundo o Meld." O Ministério da Saúde não comentou.
Para Boutros Sanossian, de 64 anos, o Meld representou a cura. "Quando me inscrevi no sistema, era o 190º", diz. Após oito meses, ele passou para 23º. "Estou muito bem. Para mim, é um método fantástico, porque fica monitorando quem está na fila."