Quinta-Feira, 13 de Março de 2008 | Versão Impressa

União paga mais ao algoz que à vítima

Líder de atentado obteve benefício de R$ 1.627; mutilado ficou com R$ 571

Rejane Lima

Quase 40 anos depois de ter perdido a perna esquerda na explosão de uma bomba usada em ataque ao consulado americano em São Paulo, Orlando Lovecchio Filho, de 62 anos, soube que o líder do atentado, Diógenes Carvalho Oliveira, na época membro da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi incluído na Lei da Anistia. Decreto publicado no Diário Oficial da União, em 24 de janeiro, garantiu a aposentadoria R$ 1.627 mensais a Diógenes, além de pagamento retroativo de R$ 400 mil. Lovecchio teve a inclusão na lei negada e recebe uma pensão mensal de R$ 571 mensais.

A diferença das indenizações foi revelada ontem pelo jornalista Elio Gaspari. Corretor de imóveis em Santos, Lovecchio estudou Administração de Empresas, trabalhou com informática, foi casado, teve um filho, divorciou-se. Hoje vive em um apartamento com a mãe, em frente à Praia do Gonzaga. "O apartamento era do meu pai", afirma o corretor.

ESTILHAÇOS

Ele estava na capital paulista no fatídico 19 de março de 1968, para trabalhar com o pai, enquanto completava as horas de vôo para tornar-se piloto comercial. Os estilhaços de bomba deixaram cicatrizes nas pernas e nas costas. Oito dias depois, o jovem de 22 anos teve a perna esquerda amputada, pouco abaixo do joelho. A carreira de piloto ficou para trás, mas não o otimismo: "Pensei: se o Roberto Carlos tem perna mecânica e é o que é, eu também posso."

Ele diz não ter rancor dos autores do atentado, mas pede justiça. "Não pode a vítima ter menos direito que o autor do dano."

"Houve um período na minha vida, de 1968 até 1975, em que eu não era tido como uma vítima, era um suspeito de ter colocado a bomba. Vivi num limbo jurídico", relata. Foi detido três vezes.

Lovecchio mantém no site www.exibir.com os projetos de lei, medidas provisórias e documentação da sua luta. Atualmente, tenta aprovar uma lei que lhe garanta benefício equiparado ao dos anistiados. No site, expõe ainda a carta já levada três vezes ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, duas delas no Forte dos Andradas, no Guarujá. "Mas o presidente é omisso", afirma Lovecchio.

RECADOS

O Estado deixou recados nos celulares de Diógenes e do seu advogado, mas não obteve resposta para ouvir a versão deles.