Segunda-Feira, 24 de Março de 2008 | Versão Impressa
SP cria secretaria para deficientes
Após experiência na Prefeitura, Estado também terá orgão para lutar pelo aumento da acessibilidade
Eduardo Nunomura
É dura a vida de quem depende de ônibus com rampas especiais, calçadas adaptadas ou simples acesso a prédios. Municípios costumam fugir da responsabilidade. Esse será um dos maiores desafios da médica Linamara Rizzo Battistella, escolhida para chefiar a Secretaria Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Médica fisiatra e diretora da Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, ela tem lutado para tornar reais políticas públicas para a pessoa com deficiência. "A garantia do acesso é dar aos diferentes o que necessitam para que tenham condições de igualdade", diz. "A secretaria vai ter de zelar para que Estados e municípios estabeleçam metas e incluam questões como o trabalho."
Leis como as de cotas, que obrigam empresas a ter nos quadros de 2% a 5% de deficientes, serviram de estímulo para levar os deficientes às ruas. Mas ainda falta capacitação profissional. "É óbvio que está faltando tudo, porque faz muito pouco tempo que a sociedade atentou para essa questão", diz Carlos Eduardo Ferrari, da Associação para Valorização de Excepcionais.
A nova secretaria cria 43 cargos. Entidades ligadas aos portadores de deficiência elogiam o fato de ela ter incluído a palavra "direitos". Terá, assim, mais condições de cobrar ações de prefeituras, secretarias e sociedade civil. A presidente do Conselho Estadual para Assuntos da Pessoa Portadora de Deficiência, Márcia Paes Gori, comemora a criação da secretaria por um motivo especial. O governador José Serra pediu às entidades que participassem da elaboração da pasta e apontassem os erros no órgão que ele criou, em 2005, quando prefeito. A falta de participação do conselho municipal foi a principal crítica.
"A secretaria municipal perdeu diálogo com a sociedade civil, enfraqueceu o conselho municipal e muitas políticas que a Prefeitura pôs em prática vieram das idéias desse conselho", critica Márcia. Segundo ela, a reformulação das calçadas na capital, foi feita de cima para baixo, sem envolver a cidade.
Em São Paulo, a Prefeitura cuida do programa de novas calçadas. É uma política pública reconhecida, mas ainda atinge uma parcela ínfima da cidade. No ano passado, chegou a 160 quilômetros. "A gente começa numa calçada nova, com boa metragem, e logo já vem a antiga, cheia de problemas", protesta Souza Lima. Ele perdeu os movimentos da perna num acidente de carro. Hoje recupera a auto-estima fazendo o que pode, como treinando tênis de mesa. Mas para se locomover, precisa disputar espaço com os veículos. "Falta muito para dizer que a cidade é acessível."
O secretário municipal Renato Corrêa Baena afirma que ao assumir a pasta encontrou um conselho municipal "desatualizado, com problemas de representatividade". Como solução, vai enviar projeto de lei reformulando o conselho, não com pessoas, mas entidades. Segundo Baena, a solução foi buscar políticas públicas elaboradas por uma consultoria contratada pela gestão Marta Suplicy e colocá-las em prática. Daí vieram, por exemplo, a idéia dos ônibus com elevadores. Mas eles ainda levam mais de meia hora para chegar.