Segunda-Feira, 24 de Março de 2008 | Versão Impressa

Sim, o capitalismo se excede (e se corrige)

Carlos Alberto Sardenberg*

Toda vez que acontece uma crise dessas aparecem interpretações acadêmicas e jornalísticas sobre políticas econômicas e práticas do capitalismo. Há uma espécie de concurso para saber quem previu a crise e uma disputa em torno de como será seu desfecho. Décadas atrás, alguns aproveitavam para prever o fim do capitalismo. Hoje, diante da falta de alternativa, se prevê o fim do império americano. E, por certo, há um debate sobre os culpados pela crise.

Ocorre que o dinamismo do capitalismo e a enorme capacidade criadora dos agentes econômicos dificultam as análises online. Os modelos disponíveis foram construídos a partir da observação de crises passadas. E a crise atual é sempre um bicho diferente.

Em todo caso, há temas polêmicos que sempre aparecem, como o grau de intervenção do Estado na administração da crise. Há aí uma falsa questão: os governos devem ou não intervir nos mercados? Os governos sempre intervêm, mesmo fora da crise. Basta observar a quantidade de agências reguladoras e fiscalizadoras (começando pelos bancos centrais) e a legislação cada vez mais ampla que regula a economia em geral e os mercados financeiros em particular.

E é bobagem dizer que a crise ocorre porque os mercados foram deixados livres para exercer sua cobiça. O mercado, como o ser humano, é sempre ganancioso, mas também é sempre controlado. Pode ser bem ou mal controlado, bem ou mal administrado. É mesmo possível que intervenções das autoridades agravem a crise.

A discussão relevante envolve a eficiência dos controles. Até onde vai o poder de um banco central? Qual a sua capacidade de intervir?

No caso atual, essa questão apareceu quando o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) administrou e colocou dinheiro na operação de compra do banco de investimento Bear Stearns pelo JP Morgan.

Uma reação esperada sustenta que não faz sentido o governo colocar dinheiro público para salvar banqueiros. Outra diz que esse tipo de intervenção mostra que os mercados não podem ser deixados soltos, que o governo precisa intervir sempre, porque senão o capitalismo come o capitalismo.

Dois equívocos.

A operação do Fed não salvou os donos dos bancos. Salvou o banco, isto é, o dinheiro que as pessoas e as empresas tinham lá depositado e aplicado. Salvou também os credores do banco. Os acionistas perderam. Foram praticamente obrigados a vender suas ações a US$ 2 cada uma, um preço de liquidação. No ano passado, antes da crise, a ação do Bear Stearns chegou a ser negociada a US$ 169.

Além disso, a intervenção, na verdade, salvou todo o sistema bancário. Se o quinto maior banco do país, um conglomerado internacional, fosse à lona em conseqüência de uma corrida de depositantes e investidores para sacar seus recursos, instalar-se-ia uma crise de confiança de tal ordem que a atitude mais sensata de qualquer pessoa seria ir a seu banco, qualquer banco, e sacar seu dinheiro. Como não há dinheiro para todos, bancos quebrariam e milhões perderiam suas poupanças. Por isso, os banqueiros centrais, mundo afora, não pensam um minuto para salvar um banco quando existe a menor ameaça de uma quebradeira de todo o sistema. Esta falência imporia um tal dano à economia e à sociedade que justifica o custo da operação.

Sim, toda esta argumentação vale para o brasileiro Proer, que muitos analistas internacionais consideram uma das melhores ações de saneamento de um sistema financeiro nacional. Aliás, alguns disseram que a intervenção do Fed foi, assim, digamos, meio tosca. Foi, porém, o que dava para fazer nas circunstâncias.

Muitos disseram que o resgate do Bear Stearns foi a primeira grande intervenção do Estado norte-americano depois de vários anos de o mercado ter sido deixado à solta. E teria sido uma intervenção oportuna para salvar o mercado do próprio mercado. Não é correto. Basta ler o livro de Alan Greenspan - A Era da Turbulência - para se verificar como o Fed acompanha os passos dos mercados e vigia as instituições financeiras.

Aliás, o próprio Greenspan, na crise de 1998, montou uma operação de resgate do fundo de investimentos LTCM, que perdera quase US$ 5 bilhões em quatro meses e ameaçava derrubar uma seqüência de instituições.

Mas ninguém precisa salvar o capitalismo do próprio capitalismo. Nem conseguiria. Ao contrário do que se diz, o capitalismo não é predador, é uma extraordinária máquina de gerar riquezas e crescimento. Tão extraordinária que não raro se excede e cria as famosas bolhas. Aqui também se costuma dizer que os bancos centrais são os responsáveis pelas bolhas, quando, por exemplo, mantêm os juros muito baixos e/ou injetam muito dinheiro no mercado.

Os juros muito baixos de Greenspan, nessa tese, teriam sido a causa de várias bolhas, da internet de ontem às atuais da casa própria e das commodities.

Mas por que não olhar pelo outro lado? Os juros baixos permitiram longos períodos de fantástico crescimento do consumo e dos investimentos em todos os setores da economia norte-americana e, em conseqüência, mundial. A China não teria conseguido sua arrancada, se o consumidor americano não tivesse acesso fácil ao crédito barato. E o Brasil não teria decolado com suas exportações, se a máquina chinesa não demandasse tantas matérias-primas.

O fato é que bolhas não são de hoje. E, pelo jeito, parecem inevitáveis. Nos períodos de expansão, todo mundo relaxa os controles. E, claro, tem gente que abusa e dribla os controles. Apanha-se, faz-se o balanço e se impõe nova regulação. Até a próxima bolha.

Querer uma regulação ou uma austeridade monetária que impeça qualquer excesso é como proibir a festa porque alguns podem comer e beber além da conta.

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista. Site: www.sardenberg.com.br