Sexta-Feira, 28 de Março de 2008 | Versão Impressa

Charme, elegância e bajulação ajudam a tornar visita um sucesso

Gilles Lapouge*

Um triunfo. Para Carla Bruni. A mulher do presidente francês, Nicolas Sarkozy, foi impecável. Bela e doce, fez uma reverência antológica diante da rainha Elizabeth. Evitou dois erros: ou uma genuflexão seca e um pouco irônica ou, pelo contrário, um mergulho muito entusiasmado, como aconteceu com a pobre mulher do ex-presidente Jacques Chirac. Carla, não! Ela fez uma pequena inclinação, quase invisível, mas grandiosa. Nenhum esforço. Para fazer um gesto como esse, tão humilde e tão majestoso, é preciso ter sido agraciado, no berço, com 800 anos de distinção hereditária.

Quanto ao berço de Sarkozy, ele teve ter sido também muito mimado. Mas não da mesma maneira. Seu dia também foi longo, mas ele se comportou muito bem. Teve aulas com os melhores especialistas em protocolo. Sarkozy revisou seu inglês, comprou um magnífico fraque preto. E Carla e seus instrutores lhe puseram na cabeça os princípios fundamentais da elegância.

Essa preparação intensiva surtiu algum efeito. No início, Sarkozy se virou muito bem. Estava transformado. Claro, não se tornou, repentinamente, uma pessoa distinta. Mas estava mais calmo, reservado, sério. Infelizmente, à medida que as horas passavam, a bela mecânica montada às pressas em Paris se desarranjou. O primeiro alerta foi ao meio-dia, quando ele subiu na carruagem da rainha Elizabeth. E começou a repetir "Oh, my God!" , quando se recomendou muito bem que ele devia ficar calado.

E, ao ver os londrinos aglomerados durante o percurso, não conseguiu se controlar, lançando um "Cheguei!" pela janela. Ao mesmo tempo, ele se recuperava das duas horas de serenidade que lhe foram impostas depois de sua chegada à Grã-Bretanha. Os olhos saltavam como pulgas para todos os lados, os dentes se cerraram, os tiques nervosos reapareceram, em torno da boca e nos ombros. O autocontrole caiu por terra.

Mais tarde, a revista dos soldados britânicos foi testemunhada pelo jornal Libération: "Ele não tem mais controle. Mexe as pernas, vira a cabeça, não ouve quando lhe falam. E cada vez mais tiques. Depois, fica de mãos dadas com Carla. Mas isso é contra o protocolo. Quinze minutos de suplício."

O resto do tempo foi melhor. À noite, no banquete, ele se recompôs. A imensa mesa estava invadida de prataria, cristais e candelabros. Guardanapos com monogramas. Buquês de flores por todos os lados. Os convivas apertados como sardinhas. Assim, era preciso ficar rígido como uma estaca, os braços colados ao corpo. Nada de bancar o engraçadinho nessas circunstâncias! No início do jantar, os brindes. O da rainha, sem muita animação, morno, neutro. Perfeito, portanto. Depois, a vez de Sarkozy. Mas isso ele sabe fazer. Ele se agitou. Falou longamente. Como sempre. Brilhante. Às vezes sorridente. Único problema: falou em francês. Mas o fez com tal lirismo que caiu como mel sobre a mesa. Ovação.

Sarkozy, quando ama, não faz cálculos. Seu discurso foi animado. E depois, no Parlamento britânico, foi mesmo um pouco suspeito. Os deputados e lordes ficaram assombrados. Jamais imaginaram que eram tão belos, gentis e inteligentes. Ficaram esmagados sob toneladas de cumprimentos, quilômetros de hipérboles, oceanos de bajulações. É esse o inconveniente de Sarko, ele sempre exagera! Eis alguns extratos desse exercício de admiração: a Grã-Bretanha? "Um ideal humano e político." A Inglaterra? "Pedra angular de toda a democracia." A França e a Grã-Bretanha? "Dois irmãos, mais fortes quando estão um ao lado do outro do que um contra o outro!" O futuro? "Uma nova fraternidade franco-britânica."

Como resistir a esse dilúvio? O Parlamento britânico não resistiu. "Obrigada por sua tremenda paixão", disse a presidente da Câmara dos Lordes.

Foi desse modo que se desenrolou a suntuosa visita de Sarkozy e Carla. Muita pompa, carruagens do século 18, pratos de duques britânicos mortos há mais de três séculos, cavalos mantidos miraculosamente vivos desde a época de Shakespeare, tirados de seus estábulos da Renascença para a ocasião, pratarias, estandartes. Sarkozy foi recebido num conto de fadas. É uma continuação: ele seduziu Carla Bruni há apenas alguns meses, convidando-a à Disneylândia, perto de Paris, entre o Pato Donald e a Cinderela. Já era um conto de fadas, mas não era real. Ontem, em Londres, foi um conto de fadas de verdade, em pleno século 21. É essa a graça das grandes monarquias européias: elas flutuam sobre o tempo.

Coincidindo com a visita, os jornais publicaram uma bela foto de Carla nua, cujo original será leiloado em Nova York, com lance inicial de 2.500. Carla mostrou que as sociedades se transformam. Em 2008, a primeira-dama de um grande país pode ser uma ex-modelo que posou nua. Fazendo um balanço, a viagem foi um sucesso.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris