Terça-Feira, 01 de Abril de 2008 | Versão Impressa

Construção do Cristo Redentor vira livro

Obra tem imagens antigas do Corcovado e ensaios de paulistas

Clarissa Thomé

Em 1502, o navegador italiano Américo Vespúcio viu no Morro do Corcovado o Pico da Tentação, referência à passagem bíblica em que o diabo oferece riquezas a Cristo. D. Pedro I, ainda príncipe, guiou uma expedição ao cume, em 1824. Sessenta anos mais tarde, seria inaugurada a estrada de ferro que até hoje leva turistas de todos os cantos do mundo. Mas somente em 1931 a paisagem do Rio seria definitivamente modificada, com o fim das obras do Cristo Redentor.

O Morro do Corcovado e o Cristo, o mais importante monumento do Rio, ganharam um livro com todas essas histórias. Organizado pelo jornalista Leonel Kaz e pela filósofa Nigge Loddi e patrocinado pela Bradesco Seguros, Cristo Redentor - História e Arte de um Símbolo do Brasil (Editora Aprazível) reúne 160 fotografias - 100 em preto-e-branco - que mostram o Rio desde antes do Cristo.

As primeiras imagens são de fotógrafos como Augusto Malta e Marc Ferrez. Nos registros, surgem os morros do Rio ainda cobertos por matas (muito antes das favelas), a Praia de Botafogo da belle époque com praças pré-aterro e até um grande coreto - o Chapéu de Sol -, que mais tarde daria lugar à estátua. O título de um dos textos, assinado pelo professor de história Antonio Edmilson Martins Rodrigues, traduz a sensação de quem vê as imagens: ''O Cristo Redentor sempre esteve lá, no alto de nosso imaginário.''

O livro também trata da construção da estátua. O monumento aparece em pedaços: a cabeça montada num sítio de Niterói, um braço ainda inacabado, as ferragens que sustentam o concreto, a estátua cercada por andaimes. E resgata detalhes da construção, como as moças do Círculo Católico que confeccionaram pacientemente as telas com caquinhos de pedra-sabão que revestem a estátua.

Para encerrar a obra, há ensaios fotográficos encomendados especialmente para o Cristo Redentor. O paulista Cristiano Mascaro procurou mostrar a relação da cidade com o monumento e o carioca Claudio Edinger, radicado em São Paulo, registrou o cotidiano do ponto turístico - funcionários da limpeza, guardadores de carro, garçons, motorneiros e suvenires.

REFERÊNCIA

Durante um ano, Kaz e Niggi se debruçaram sobre mais de 10 mil fotografias, garimpadas em 25 acervos. ''Fizemos um livro de pesquisa, de referência para estudiosos'', disse Kaz. ''Mais do que imagem sagrada, a cidade tem uma relação ininterrupta com o Cristo. Pode-se vê-lo de todos os lugares. É um ponto de referência.''