Domingo, 13 de Abril de 2008 | Versão Impressa
Cleverton, o artista da Rocinha que conquistou a Praia de Ipanema
Aos 27 anos, ele fatura R$ 3 mil por mês vendendo suas criações com folhas de palmeira para lojas e madames
Márcia Vieira
O criador dessas peças tem nome exótico. Cleverton Henrique Lenes, de 27 anos, é paranaense de Telêmaco Borba, município a 250 quilômetros de Curitiba. Saiu de lá há cinco anos curioso para ver o Rio. Parou primeiro em São Paulo. Ficou um ano como instrutor de auto-escola na capital paulista e outros quatro percorrendo o litoral até chegar ao Rio. Agora, mora na Rocinha, a maior favela carioca, e fatura quase R$ 3 mil por mês vendendo suas criações nas ruas de Ipanema.
Para chegar ao Rio, pediu carona, andou de ônibus, caminhou quilômetros. A jornada serviu para que ele aprendesse a fazer artesanato com os hippies que encontrou pelas praias. Fez de tudo, mas abandonou logo os brinquinhos de conta e as pulseiras trançadas para inventar seu próprio estilo. "Não queria fazer nada que todo mundo encontra ali na esquina", explica. Sua matéria-prima é a folha do coqueiro. Seu trabalho é delicado, original. Começou vendendo peças no calçadão da zona sul carioca. Mas logo descobriu que, no Rio, o dinheiro mora no quarteirão de Ipanema próximo da Rua Garcia D?Ávila, onde se concentram lojas como a Mont Blanc e a Louis Vuitton e as joalherias Antonio Bernardo e H.Stern. Cleverton, de uma família classe média baixa do Paraná, nem terminou o ensino médio, mas entende de marketing. Ele se veste daquele jeito que os estilistas chamam de casual. Bermuda, camiseta e sandálias de trekking. Todos os dias, estaciona sua bicicleta preta na calçada em frente da H.Stern. Numa cesta, coloca seus bichinhos pendurados por fios de arame, como uma vara de pescar. Ao lado, espalha suas folhas de palmeira e fica ali pelos menos cinco horas por dia fazendo e vendendo produtos. O sucesso chegou rápido. "Madames adoram bichinhos. São os que mais vendem. Uma delas disse outro dia que eu seria sucesso em Nova York. Será?" O preço é convidativo. Um peixinho custa R$ 3. Uma borboleta, R$ 5. E também fazem sucesso a rosa (R$ 3) e o chapéu, seu produto mais caro (R$ 25).
Após conquistar as madames, Cleverton foi descoberto por outra elite, a do comércio que domina o bairro. Tatiana Bica, coordenadora de eventos do luxuoso Hotel Fasano, viu na casa de uma amiga um pássaro feito por Cleverton. Achou lindo e mandou um funcionário procurar o autor por Ipanema. "Encomendamos 50 cestas para servir coco na piscina. São lindas. Elas chegam verde e, à medida que o tempo passa, vão escurecendo e ficando secas. É um efeito muito bonito."
De pouquinho em pouquinho, Cleverton já ganhou o suficiente para fazer um "puxadinho" na casa da namorada, na Rocinha. Ele adora a favela. É conhecido entre os vizinhos como "o cara da palha". Antes de chegar à favela, perambulou em hotéis e pensões no centro da cidade. O Rio é do jeito que ele imaginava quando era office-boy em Telêmaco Borba. "Uma cidade que tem o melhor e o pior. Aqui no Rio, já vivi tudo de bom e tudo de ruim." Mas prefere lembrar apenas das coisas boas. Como o dia em que foi levado à cobertura do Hotel Fasano para discutir a encomenda de 50 cestas. "Tirei a maior onda naquele piscinão. Que vista é aquela?!" Também se divertiu em outro hotel cinco-estrelas da cidade, o Sofitel, na Praia de Copacabana. "Fui contratado para ficar lá durante cinco horas fazendo bichinhos no carnaval. Um espetáculo de hotel. Ofereceram até hospedagem."
PERSONAGEM
No Rio, ele aprendeu até a gostar de seu nome, que sempre achou uma "viagem" do pai, o comerciante Cedevir. Um turista, provavelmente americano, comprou umas coisinhas e elogiou: "very beautiful, you are very clever." O elogio foi fundamental. "Cleverton quer dizer no tom da inteligência", diz. Encontrou aí estímulo para brigar por seu grande objetivo. "Quero que o mundo me conheça." No Rio, pelo menos, ele já virou personagem.