Quarta-Feira, 30 de Abril de 2008 | Versão Impressa

Pancadaria para ver o Palmeiras

Torcida se revolta com sumiço dos ingressos para a final e arma confusão nas bilheterias do estádio Palestra Itália

Daniel Brito

Quando o funcionário do Palmeiras avisou que os ingressos para o último jogo do campeonato paulista, domingo no Parque Antártica, haviam se esgotado, uma garrafa de cerveja (cheia) foi arremessada contra a parede da bilheteria e decretou o início da revolta da torcida. Os palmeirenses entraram em confronto entre si e contra os policiais que tentavam manter a ordem nas proximidades do estádio. Eram 13h25 quando o tumulto começou, exatamente duas horas e 50 minutos após a abertura das bilheterias.

Um estilhaço da garrafa quebrada na parede foi parar na cabeça do aposentado Celso Alves do Santos, que veio de Suzano de madrugada para garantir um lugar na arquibancada. Com uma prótese na perna direita, ele estava sentado em uma cadeira de plástico, próximo ao guichê de atendimento quando a confusão estourou. Foi encaminhado a um hospital, com um corte profundo.

A correria se alastrou pelas ruas adjacentes e, com ela, a baderna. O comércio local fechou as portas às pressas, cadeiras dos bares foram arremessadas na polícia, assim como pedras, madeiras, garrafas e latas de cerveja. O recém-inaugurado Shopping Bourbon fechou suas portas para torcedores com camisas de torcidas organizadas do Palmeiras. O trânsito em Perdizes ficou mais complicado. ''Pedi folga no serviço, cheguei às duas da manhã e só havia 500 pessoas na minha frente. Quando clareou, o pessoal invadiu e fiquei atrás de mais de três mil furões'', calculou Stefano Rinaldi, que veio de Santos.

Na confusão, sobrou até para a imprensa. O carro de uma emissora de TV foi apedrejado. Sete torcedores foram detidos, mas liberados no início da noite.

A quase um quilômetro de distância da bilheteria, o estudante Marcelo Arruda chorava, desolado. Com a bandeira do Palmeiras para enxugar as lágrimas, contou que levou pancadas de cassetete nas costas. ''E saí sem ingresso'', lamentou.

A estudante Paula Pereira estava ofegante próximo ao Bourbon, na esquina da Turiaçu com a Pompéia. Ela faltou à aula para comprar ingressos, mas voltou para casa aos prantos. ''Culpa dos cambistas'', protestou. ''Tinha de ter um pacto para ninguém comprar ingressos deles.'' Os cambistas já rondavam a região com seus preços superinflacionados. O Estado ouviu propostas que iam de R$ 120 a R$ 200 para entrada na arquibancada. Na bilheteria, o ingresso mais caro custava R$ 40.

6 MIL POR HORA

De acordo com a assessoria de imprensa do clube, aproximadamente 17 mil bilhetes foram colocados à venda. O restante foi dividido entre sócios e convidados (três mil), a torcida da Ponte Preta (2,6 mil) e o Setor Visa (5 mil). Ou seja, 27,6 mil pessoas estarão no Parque Antártica no domingo.

O que mais intrigou os torcedores que voltaram para casa de mãos abanando foi o fato de não terem visto a quilométrica fila andar ao redor do estádio. ''Os ingressos acabaram antes que eu saísse do lugar onde estava desde ontem (segunda-feira)'', gritou, indignado, o palmeirense Flávio Ferrarese.

Em uma matemática rápida e simples, os guichês de atendimento do Palestra e nos demais pontos de venda (Canindé, Santo André, Barueri, Ibirapuera, Ipiranga e na Rua Barão de Limeira), bateram recorde no quesito rapidez. Como cada torcedor só tinha direito de adquirir três tíquetes, foram vendidos cerca de 100 ingressos por minuto, que gera um total de 6,8 mil por hora. Se a regra foi seguida à risca, apenas 2,2 mil pessoas foram atendidas na tentativa de ver o time na final.